MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

A curiosidade mata gatos

O dia começava ensolarado.

A calça jeans era confortável, suas pernas estavam bem.

Mas era no tronco aonde sentia um desconforto irreal.

O rosto parecia pressionado, de dentro pra fora. Como quando a gente prende a respiração por muito tempo.

Mas ele respirava bem. O cigarro ia e vinha dos lábios para a ponta do indicador e médio.

Seus anéis acompanhavam o movimento.

E os olhos de repente queriam transbordar por sobre as órbitas. Mas ele creditava isso ao vento.

Para entender o por quê dessa agonia, ele relembrou os seus passos.

Acordou de bruços debaixo de uma árvore. Pegou sua pá e foi vagando pelas fazendas dela.

Estava se divertindo, descobrindo novas plantas, novas flores, novos fumos, novos riachos e fontes.

Até que decidiu cavar um buraco.

Ascendeu mais um cigarro. Olhou para o chão entre uma tragada e outra. Tirou a camiseta. O Sol iluminava bem a planície verde e começava a esboçar um fio de suor na fronte.

Passou um homem a cavalo, ficou entre o sol e ele e disse:

– Meu bom homem, não cave fundo que encontrás o diabo ou muitos diabos!

Ele não respondeu. Sabia o nome do homem, mesmo sem nunca ter visto o seu rosto, era a voz dele que muitas vezes o alertava do perigo.

Mas a teimosia e a curiosidade flertavam com ele e acariciavam seu corpo.

Encontrou um baú e enxugou a fronte. Sentou de frente para a caixa, na inclinação do rombo que abriu no seio da terra.

À essa altura o cavaleiro já tinha disparado com o vento. Mas ouviu-se o tiro de sua calibre 38 lá no longe. O Eco o lembrou do conselho, mas ele foi prepotente e achou que era mais forte que qualquer demônio que venha assombrar essas terras.

Com muito cuidado foi soltando o cadeado da tampa da pequena arca. O que será que tem aqui dentro?

“Clic, clac” E a tampa estava se abrindo bem devagar!

Tudo o que viu foi um punhado de poeira, desenhos e cartas borradas em pequenos pedaços de papel apodrecido. Parte virou poeira, parte ainda era legível. O problema é que ele respirou fundo aquele pó.

Ele engasgou, tossiu, xingou e levantou de um pulo.

Batendo o chapéu na perna e pegando um lenço do bolso para limpar o rosto ele sentiu o baque. Todo aquele pó escuro de papel velho estava dentro dos pulmões dele, bem lá no fundo. Talvez esteja impregnado em algumas células do seu corpo.

Os olhos marejaram e o rosto ficou inchado. Tinha vontade chorar. Depois acendeu o cigarro e veio o vazio.

Olhou ao redor e percebeu que desde que acordara, estava sozinho por aquelas bandas.

Procurou o rastro do cavaleiro e percebeu que não muito longe, avistou uma mancha escura por onde ele passara.

Acendendo outro cigarro e enxugando mais uma vez a testa contra o Sol foi se aproximando da mancha. Era um gato, um gato morto.

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Informação

Publicado em 29 de junho de 2010 por em Contos.
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