MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Ich hass mein Bruder

Pânico – 

adj.

1. Que assusta, súbita e violentamente, sem motivo.
s. m.
2. Medo, susto, eventualmente infundados.

Você já sentiu pânico?

Não um pânico qualquer, mas puro e consistente medo. Você sabe que o seu espaço será invadido e vão te machucar.

Você se esconde, percebe que o esconderijo não é bom e vão te achar. Você corre, mas as pernas dele são mais rápidas que as suas e ele vai te alcançar.

Nessas horas você faz a coisa mais burra que poderia fazer, corre para um canto sem saída e se encolhe.

O primeiro soco te acerta. Em cheio no braço esquerdo. A adrenalina é tanta que você não sente a dor que um corte de papel ou pisar em um prego traz. Mas o seu ombro estala de tão forte que é o impacto. E depois vem outro, e outro e mais um. Todos no mesmo lugar.

A sua cabeça chacoalha junto e você percebe que começou a urinar. Depois você ainda acha bom estar só de sunga, afinal não sujou nenhuma roupa a mais.

Você percebe que seus olhos estão arregalados e em vão tenta deter os golpes. Não consegue mais se contar quantos foram nem quantos restam.

Quando a dor começa a ser tolerável, já que não passa, se olha ao redor e você enxerga a sua cunhada chorando, impotente, seu irmão do meio olhando estupefato, mas sem fazer nada e o melhor amigo do seu irmão mais velho, esse mesmo que está te surrando, pedindo pra ele parar com uma convicção que não convenceria uma criança de seis anos.

Finalmente o braço dele cansa e ele começa a desferir uma série de insultos em direção ao garoto de onze anos. Sua cunhada vem cuidar de você e te acudir, mas ele grita com ela e manda ela me deixar. Você se recolhe a um canto do quarto e é coberto de mais insultos. Metade do corpo está dormente e olhando, se enxerga uma mancha preta na lateral do braço.

Sua cunhada chora como se ela tivesse apanhado,  mas seu irmão do meio e o amigo do mais velho te deixam sozinho e você fica lá, atônito. Espera seus pais chegarem do mercado ou à praia ou qualquer lugar que tenham ido.

Você escuta a sua cunhada chorar enquanto toma banho – ela mal sabia que um dia também ela apanhar dele.

A família da caseira está chocada. Seu irmão mais velho te pega pelo braço, aquele mesmo que foi machucado e manda você lavar a toalha que ele pensa ser dele, o motivo da sessão de socos.

Você só a tinha usado pra se enxugar quando saiu da piscina e sua mãe te disse quando tinham chegado à casa, “a toalha azul é pra você usar na piscina”.

Você tenta levantar o braço, mas não consegue. A caseira, com dó tenta ajudar e te manda descansar que ela vai cuidar daquilo.

Ele briga com ela, diz pra ela não ajudar, que você precisa aprender. Ela é a única que bate boca e decide ficar ao seu lado e lava a toalha.

Volta-se para o canto. E se esculta mais insultos. O pânico vai embora quando a calma se instala. Todos vão embora, pegar a estrada pra voltar à casa. O lugar que o pânico ocupava passa a ser tomado pela vergonha.

Vergonha da impotência, do fato de ter se urinado, da família da caseira…

Finalmente seus pais chegam. Eles já sabem o que aconteceu, a caseira correu contar. Quando eles entram no quarto, a primeira coisa que você escuta da sua mãe é, “por que você foi pegar a toalha dele?”

Seu pai sempre foi indiferente e não foi dessa vez que ele ia colocar o mais velho depois do mais novo. Acontece. Outro que pergunta porque você pegou a toalha que você pensou ser sua.

Você fica com mais vergonha do patrão do seu pai e da sua esposa porque todos te viram com o tremendo roxo no braço e te olham com pena.

Mas ninguém pensa em dar uma dura no moleque de dezoito anos que te machucou.

Você não abre um pio e choraminga todo o caminho pela estrada de volta pra casa.

A família tem um discman e todos sabem que o pai comprou pra ser dividido. Mas você escuta a ordem da sua mãe, “devolve o discman dele e coloca no lugar aonde estava pra não irritá-lo”.

Os dias passam e ninguém fala nada a ele e fica “elas por elas”.

E você se pergunta, “porque ninguém faz nada?”

Conforme os anos vão passando alguns episódios como esse se repetem e todos vão deixando, abaixando a cabeça pra não irritá-lo.

Outra vez você apanha, quase seis meses depois, porque ele desconfia que você quebrou um quadro dele que você nem lembrava que existia e sua mãe assiste a sessão de socos sem fazer absolutamente nada!

Conforme vão fazendo isso, aquela mancha preta de sangue pisado e células mortas de tecido é absorvida pelo seu corpo. Você começa a colecioná-las. O que ninguém percebe é que ela vai parar lá no fundo do seu subconsciente e do seu coração.

Toda vez que algum ataque dele acontece, jogam um adubo pra essa mancha e ela vai crescendo, se alimentando. O pânico e a vergonha se transformam em raiva e ela, de tempos em tempos vira ódio.

O problema do ódio é que quanto mais você o suprime, mais ele se instala e vira um câncer. Por mais que precise e queira liberá-lo e jogar tudo aquilo de volta, não te deixam.

Um dia ele te ofende de forma bem criativa, usando ex-ficante e ex-namorada na situação que ele cria só pra te cutucar. O que você faz? Amassa o carro dele na porrada.

E todos ficam irados porque ele é um trabalhador e conquistou aquele bem e todos te repudiam. Inclusive o irmão do meio que por tantos anos apanhou e foi humilhado. Mulher de malandro.

Os episódios são incontáveis e ele por meio de ditadoria reina no lugar aonde você é obrigado a viver.

E não importa quantas vezes ele trate mal todos em sua volta, traia sua noiva incontáveis vezes, nada o toca.

De novo, a impunidade.

E aquela mancha fica anos guardada, brigando pra sair, pra estourar seu peito e gritar.

Mas ela cresce e cresce e fica quase insuportável carregá-la.

Suas raíses passaram a se movimentar e ela percorre todo o seu corpo te arranhando e tentando cavar um lugar pra fora.

Agora você é grande e responde a altura, mas todos te repudiam e tentam fechar a sua boca quando você grita, tentam te segurar enquanto você quer matá-lo. No outro dia você meche em toda a mobília do seu quarto sozinho pra tentar desconcentrar e calar o monstro dentro de você.

E o medo volta. Agora ele é diferente. Ele não se encontra mais fora, mas o medo que você sente é o do monstrinho dentro de você que está sentado em um canto esperando pra qualquer estopim e sair, agora mais forte, letal e perigoso. Ainda sim, você briga com você mesmo e aquilo que era só uma mancha preta começa a te surrar por dentro.

Quando está tudo na calmaria ela senta e assiste. Você se sente vigiado e fica alerta pra ela não estourar a qualquer momento, por qualquer motivo.

É insuportável segurá-la. “Orai e vigiai, porque um dia, eu te domino”, ela diz.


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Informação

Publicado em 21 de julho de 2010 por em Contos.
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