MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Insônia I


– Boa noite,

Meu nome é Caio Neumann, tenho 23 anos, tenho muitas qualidades e muitos defeitos e eu estou sofrendo de insônia.

Todas as noites estou demorando em pegar no sono. Fico vasculhando eu mesmo e as pessoas a minha volta. Penso e repenso as atitudes de cada uma dessas pessoas. Os seus motivos, suas inseguranças e fico depenando os seus orgulhos para entendê-las. Quando acho um motivo satisfatório para um frase qualquer ou para o jeito que gesticulam, como escolhem as suas sílabas tônicas em cada palavra, passo para outra.

Também procuro chegar à matriz de cada conjectura minha. Sofro com as minhas inseguranças e às vezes, acredito ser capaz de abraçar o mundo. Me inflo de auto-confiança, mas me apego aos meus deslizes e me frustro com a fragilidade atrelada aos meus sentimentos – quase sempre agudos – e isso faz com que eu destrua alguns pedaços meus e meu sono.

No final de cada reflexão, lembro que a única coisa em que posso me apegar são meus valores, minha conduta e minhas crenças – que eu questiono bastante também. Isso tudo, assassinando o meu sono.

– Muito obrigado Caio, por ter compartilhado conosco.

– Boa noite, meu nome é Arax, tenho 135 anos, sou senhor das terras do norte, fui chamado de sábio e de bom senso e hoje, não consigo mais dormir. Na verdade eu nunca durmo.

Sinto o peso do mundo sobre os meus ombros. As pessoas velhas tendem a se apegar às suas épocas douradas. E dói perceber que o ápice da sua existência já passou. Seu corpo não responde mais como antes e você fica mais lento quando tudo a sua volta aparenta estar cada vez mais rápido. Vejo do alto de meu trono e de meu orgulho o quanto nada sei. Nunca saio de meu trono. Vejo minha casa estar em ruínas e lembro, com nostalgia, os grandes bailes de minha corte e como todos agiam conforme eu comandava. Tento lidar com a dor de que hoje, não comando mais nada. Com o tempo consegui transformar meu orgulho no meu maior e mais belo adereço. Visto ele em cerimônias e recepções – que ficam cada vez mais raras conforme caio no esquecimento.

Minha terra sofre um inverno solitário há muitos e muitos anos. E quanto mais os dias passam, mais caio no ostracismo de meu ranço. Não sei mais o que é um sorriso ou uma lágrima. No debater do dia a dia, fico mais duro. As faltas dos outros não me trazem mais mágoas, nem alegrias. Apenas minhas lembramças produzem faíscas em um coração cada vez mais soterrado por lembranças.

– Vamos todos dar um sorriso de agradecimento para o Arax que compartilhou isso conosco.

– Olá, eu sou Juan, sou fumante compulsivo e os cigarros não me deixam mais dormir.
Na verdade, sou compulsivo por tudo, mulheres, jogos, inconsequências… Na verdade é isso, eu sou o Id, sigo minhas vontades sem pensar em consequância alguma. Não me trato, não reflito, apenas vou conforme o vento me leva. Estou aqui hoje, por não conseguir dormir, e eu quero dormir. Não admito não realizar um desejo. E eu desejo dormir. EU QUERO, EU FAÇO…!

– Ok, vamos nos acalmar, muito obrigado Juan.

O que podemos tirar de lição para nós no depoimento desses três companheiros? Alguém quer começar?

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Informação

Publicado em 10 de março de 2011 por em "Interantissedades", Textos e ensaios....
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