MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Insônia II

Trecho do diário de João Carlos

Mais uma noite de terapia de grupo. Mas hoje ele não queria saber de muita conversa. Ouvira seu pai chorando no escuro. O peso do mundo em cada um dos seus ombros. E uma sucessão de insucessos desenhava suas olheiras ao entrar em casa.

O paciente número 23 me intriga e coloco abaixo o que ele me contou de um dia qualquer dessa semana.

Ouvindo a uma música, ele acendeu um cigarro, olhou para o céu, buscou algum consolo… e nada. Se dirigiu a mim e contou que seu cigarro não trouxe o alívio que costumava e a sua caixa toráxica parecia apertada demais. Enfrentava a possibilidade do seu maior medo. A mediocridade.

Passaria a vida inteira se debatendo sem conseguir despontar, ter sucesso em nenhuma das iniciativas a que se prontificava? Ninguém lhe daria uma chance? Deus não lhe daria uma chance? Tudo parecia dar errado em uma sucessão de erros e mais erros, todos germinados em atitudes retas. Isto é, sem machucar ou passar por cima de ninguém, sendo simpático sempre, procurando ser mais maduro do que os seus anos permitiam. E a troco de quê? De incerteza, de um futuro e um presente instáveis. Salgados.

A bem da verdade, vivemos em um sistema de castas. Ok, existe movimentação entre as camadas sociais. Mas são alguns poucos que conseguem ascender e tantos outros decair.

O velho acendeu e caiu, e hoje chora em uma sala escura. E o velho dele acendeu, foi dono de metade de uma cidade na Bahia, cidade mineira, que trabalhava ouro, mas antes de morrer, caiu e a velha hoje amarga na casa de uma filha.

É uma parede blindada pra você ir a um outro nível – além da mediocridade. Todos nós, universitários, estagiários, balconistas, caixas de McDonald’s arranhamos o chumbo desse obstáculo, dia após dia.

Quem já nasceu do outro lado, as coisas parecem acontecer tão mais fáceis…viajens para o exterior para estudar – ou não -carros nos aniversários de 18 anos, dinheiro pra gastar a rodo nos bares, abadares e toda a vida bohêmia playboyzística que as Uni-qualquer coisa oferecem nos seus arredores.

Tem dias que ele já não tem mais unhas, nem pele e vê sangue nessa parede, ele me diz, e nenhum arranhão na sua superfície. Mas ele continua ali, já nos ossos, pendurado por um fio e arranhando, arranhando…

Enquanto faço essas anotações, escuto essa versão de I walk the line… ela é chorosa, melancólica, como a minha briga com o teto…mas é constante e tem alguns altos, mas depois volta pro mesmo ritmo.

Como ele, que pensa que atravessou, mas depois diz se dar conta de que está no mesmo lugar.

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Informação

Publicado em 11 de março de 2011 por em "Interantissedades", Textos e ensaios....
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