MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

“I’ll make him an offer, he can’t refuse”

Na última semana, uma cena na biblioteca do Terminal Sacomã chamou minha atenção. Um jovem saía de lá com um livro que eu já tinha lido três vezes – e é o meu favorito – nas mãos. A capa inconfundível dessa edição da Abril Coleções, de 1981 (a mesma que eu tenho), me levou a trechos do texto.

– Bem dito. Muito bem. Então você não tem do que se queixar.  O juiz decidiu. A América decidiu. Leve flores para sua filha e uma caixa de bombons, quando for visitá-la no hospital. Isso a confortará. Fique contente. Afinal de contas, isso não é uma coisa séria, os rapazes eram jovens, ardorosos, e um deles é filho de um político poderoso. Não meu caro Amerigo, você sempre foi honesto. Devo admitir, embora você rejeitasse minha amizade, que eu confiaria mais na palavra dada de Amerigo Bonasera do que na de qualquer outro homem. Assim, dê-me a sua palavra de que você porá de lado essa loucura. Não é uma atitude americana. Perdoe. Esqueça. A vida é cheia de infortúnios.

A ironia cruel e desdenhosa com que tudo isso foi dito, a raiva controlada de Don Corleone, reduziram o pobre agente funerário a uma geleia trêmula, mas ele desabafou corajosamente…

(…) Don Corleone voltou-lhe as costas. Era um sinal de despedida. Bonasera não se moveu.

Finalmente suspirando, como um homem de bom coração que não pode ficar zangado com um amigo que erra, Don Corleone voltou-se para o agente funerário que estava agora tão pálido como um de seus cadáveres. Don Corleone foi gentil, paciente.

Que o Poderoso Chefão é um sucesso cult, uma obra imortal e atemporal quase não há dúvida. Porém, muito além da trilogia orquestrada por Francis Ford Copolla, marcada pelas atuações fantásticas de Marlon Brando, Al Pacino e Diane Keaton, e a trilha sonora inconfundível de Nino Rota, o livro de Mario Puzo se sustenta sozinho.

O livro, “The Gofdather” (1969) ou “O Chefão” (no título da edição brasileira), vendeu nove milhões de exemplares dois anos após seu lançamento. Ficou 69 semanas seguidas  entre os três mais vendidos da lista do The New York Times.

Vale lembrar que Puzo escreveu os roteiros e acompanhou a produção dos filmes, o que faz a adaptação bastante fiel. Ainda assim, o livro explora outras camadas dos personagens que os olhos menos atentos de quem assiste aos filmes não enxergam.

Por exemplo, a raiva controlada de Don Corleone citada no trecho acima também é compartilhada por Michael. Essa raiva siciliana que nunca se sobrepõe à razão. É  justamente em torno dessa característica que pesam os julgamentos perfeitos – dentro da lógica siciliana – que fazem com que os Chefões puxem as cordas das pessoas dos seus entornos.

Hagen e Lampone olharam para Michael com espanto. Estavam pensando que Michael ainda não era o homem que o pai fora. Por que tentar fazer esse traidor confessar-se culpado? Tal culpa já estava tão provada quanto uma coisa como essa podia sê-lo. A resposta era evidente. Michael ainda não tinha tanta confiança em sua razão, ainda receava ser injusto, ainda se preocupava com aquela fração de incerteza que apenas uma confissão de Carlo Rizzi podia apagar.

Ainda não houve resposta. Michael disse quase bondosamente:

– Não fique tão assustado. Você pensa que vou tornar minha irmã viúva? Você pensa que vou tornar meus sobrinhos órfãos de pai? Afinal de contas, sou padrinho de um dos seus filhos. Não, o seu castigo será que você não poderá trabalhar com a Família. Vou lhe por num avião para Las Vegas para você se unir a sua mulher e filhos e quero que você fique por lá. Mandarei uma mesada para Connie. Só isso. Mas não fique dizendo que você é inocente, não insulte minha inteligência e não me irrite. Quem o procurou, Tattaglia ou Barzini?

As características dos personagens são tão ricas e de um ponto de vista tão intimista, que é possível um homem saber o que uma mulher sente no ato sexual.

Sonny agarrou-a e empurrou-a pelo corredor para um quarto vazio. As pernas dela fraquejaram quando a porta se fechou atrás deles. Ela sentiu a boca de Sonny na sua, os lábios dele com gosto de fumo queimado, amargo. Abriu a boca. Nesse momento, ela sentiu a mão dele subindo por baixo do seu vestido, ouviu o ruído de material cedendo, sentiu a mão quente dele entre as suas pernas , rasgando-lhe as calcinhas de cetim para acariciar-lhe a vulva. (…) A língua de Sonny estava na boca da moça e ela chupava-a. Ele deu um impulso selvagem que a fez bater com a cabeça na porta. Ela sentiu qualquer coisa queimando passar-lhe pelas coxas. (…)

Além disso, a pluralidade de personagens que adornam a história espanta. Pois a família Corleone tinha muitos braços e, na ponta de cada uma dessas articulações existe uma pessoa, alguém que mediante suas ações, sempre vigiadas pelo Don, afeta o julgamento do padrinho e o carrossel que compõe a trama. Desde a infância de Vito Corleone na Sicília e em Nova York, como os anos que Michael passou lá, escondido e aprendendo os valores sicilianos, a ascensão do Don (só tratada no segundo filme) até o estabelecimento da família em Nevada e outras peripécias na Califórnia.

Nem preciso dizer que o livro vai muito mais fundo nesses pequenos enredos, coisa que o cinema sempre deixará a desejar para continuar viável.

Para comprar o livro: http://www.estantevirtual.com.br/q/Mario-Puzo

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Publicado às 17 de junho de 2011 por em Cinema, Cultura in(útil), Literatura e marcado , , , , .
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