MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Libertadores

Ele olha para os pés. A chuteira. Aperta os dedos pra ver se elas estão confortáveis.

O gramado sintético do vestiário é macio. A barriga, magra, parece que vai se engolir e o estômago vai parar nas costas.

Ele esfrega as mãos e o rosto. Sente o cheiro do gel que usou pra acertar o cabelo. O penteado moicano revela muito mais do que ele mesmo percebe. Um torcedor espera ele subir ao gramado. Enquanto isso pensa no jovem franzino com mocassins e agitando uma machadinha ensandecido em cima de um cavalo, atacando conquistadores europeus no nordeste estadunidense.

O torcedor volta de seu devaneio.

O menino, no túnel, ainda sente o frio na barriga. Porém, uma confiança arrogante projeta os seus passos dados no lugar, para aquecer o corpo. Ele pensa em toda a sua trajetória. Da origem humilde, da mãe, do pai, do passado. Lembra de quando era ainda mais menino e o pai criticava ou dava conselhos de como se comportar com a bola. Ele pensa na bola. Deseja-a. Esse é o teste final, o rito de passagem.

Pensa nos tombos de popularidade que teve nos últimos anos, nos erros, na incompetência da sua pouca maturidade em ganhar do sangue quente. Esboça uma oração. Se tranquiliza. Ele pensa no time, no escudo que ele defende e no que ele representa.

Pensa em seus ídolos e no maior de todos, de todos os tempos, o rei da sua profissão, a lenda, único e consagrado em seu trono à beira-mar.

Vislumbra uma chance de alcançar os pés desse trono. Se vê ao lado dele, imagina quando o seu status vai se igualar ao melhor de todos os tempos, ao melhor do mundo desse ano, do ano que vem.

A insegurança é fatal. 90 minutos e tudo pode ir água abaixo, ou acima.

Mas ele pensa na origem humilde e no seu salário atual. Espólio de alta hierarquia na corte do futebol. E assim, se enche de segurança, auto confiança.

Os degraus parecem infinitos. Olha para os seus braços, ajeita o shorts e a camisa. Contempla o manto. Agradece em uma prece de novo e pede a vitória.

Lembra dos adversários, altos, latinos, catimbeiros e nervosos, sabe que vão buscar o seu couro em campo. Vai levar trancos, carrinhos, chutes, socos e tapas. Mas ele vai ter que superar com elegância e lembrar a todos eles que futebol se joga com os pés e com a bola. Vai fazer o gol mais bonito e vai fazê-los todos engolir o sabor amargo da derrota.

De repente, uma onda de medo aperta mais ainda o seu estômago e ele lembra de todos os torcedores, técnico, pai, mãe, amigos… todos que vão cobrar dele, do alto dos seus 19 anos, uma resolução.

Mas nesse ponto ele olha para os seus companheiros. Sabe que não estará sozinho lá em cima. Olha para um companheiro que está voltando hoje, dá um sorriso, agradece a chance de poder estar jogando em um time como esse. E a onda de insegurança passa, mas deixa um calor, uma pressa em resolver tudo logo, já. Ele sobe os degraus, alcança o gramado e o estádio explode em ovação. Ele levanta os braços e se enche de si mesmo.

– É agora!

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Um comentário em “Libertadores

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Informação

Publicado em 22 de junho de 2011 por em "Interantissedades", Textos e ensaios....
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