MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Vagabundo, imprestável e bêbado…

Um cara mal-resolvido e com problemas familiares escreve um livro autobiográfico usando um pseudônimo para contar sua história. Você já viu isso antes, mas pode ter certeza que ninguém fez isso tão bem quanto Bukowski em Misto Quente. Buka, como vamos chamá-lo daqui pra frente, inventou Henry Chinaski. Como um é outro, não se atente a qual dos dois vai ser citado enquanto eu falo do livro, dá no mesmo.

Henry era um moleque feio e com espinhas. Não espinhas normais, daquelas que todos tem e por isso são chamados de punheteiros, mas sim espinhas monstruosas, piores do que aquela que o Doug Funny teve uma vez que até falava com ele. Rola na narrativa um pai beberrão que batia por prazer e uma mãe nula, como toda boa esposa americana deve ser. Henry passa pela escola, é zoado por todos e não consegue namorar ninguém (exceto uma vez em que quase come a mãe de um amigo). Toma seu primeiro porre e vira um beberrão de carteirinha.

É na escola também que tem seu primeiro contato com a escrita, numa redação inventada que lhe rende um dez.

“Portanto, era isso que eles queriam: mentiras”. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas, seria fácil para mim”

E ele nem precisou chegar na faculdade pra descobrir isso.

Buka curtia escrever, e achava que isso poderia ser uma fonte de renda pra subexistir. Até parece que estamos falando de mim, mas não, em 1940 ele também pensava assim. Tentou fazer jornalismo, mas como já sabia tudo o que precisava saber sobre a vida (ver citação ali em cima), desencanou. O curioso é que ele mandou essa vontade toda das pessoas em ler mentiras pra puta que o pariu e resolveu escrever só sobre o que via no centro sujo de Los Angeles e arredores: sexo, bebida, violência e sangue. Se você fosse amigo de cachaça do homem, corria o risco de vê-lo massacrando cada parte sua, até seu bigode tosco.

Inspirado por Dostoiévski e Hemingway, Buka soube falar sobre morte, violência, sexo e como esse mundo é uma merda sendo engraçado e escrevendo livros curtos sem floreios, um de seus grandes trunfos. Podemos ver isso no próprio Misto Quente, quando ele, ao se comparar com seus antigos colegas de escola, critica a vida da classe média americana, vidas sem emoção e moldadas. Ele preferia de fato tocar o horror e viver de trocados a se formar numa faculdade de engenharia e ter 3 filhos fofinhos.

Brigas, palavrões chulos, muito álcool sem nada do glamour do uísque dos intelectuais e um cara que odiava as convenções da sociedade dormindo vomitado em pensões baratas… Tem como não amar?

Mas o que de fato faz valer a pena conhecer essa peça é curiosamente não o começo de sua vida, mas sim o final. Buka foi enterrado sob a melhor lápide do mundo:

Nem adianta tentar.

Classificação:

Buka, você merece todos os Hunterzinhos e mais um pouco.

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2 comentários em “Vagabundo, imprestável e bêbado…

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Publicado às 22 de junho de 2011 por em Cultura in(útil), Literatura e marcado , .
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