MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

O Cortiço

Já que essa semana tanto a Mariana quanto a Chloé falaram de escritores brasileiros, eu vou apelar.

Vocês se lembram da obrigação pé-no-saco de ter que ler os livrinhos de vestibular etc e tal? Pois teve um livro lá no meio, que ~ surpresa~ deveriam indicar logo no primeiro ano do colegial. Eu tive sorte de ter encontrado esse lá em casa na véspera de uma viagem de dois dias de carro para a Bahia.

O Cortiço (1890), de Aluísio Tancredo Belo Gonçalves de Azevedo ou simplesmente Aluísio Azevedo, me pegou pelos olhos, coração e virilha (o_O). Isso mesmo.

Mas antes, vamos falar do Aluísio. Maranhense, de São Luís,viveu apenas 55 anos. Viajou para o Rio de Janeiro aos 17 anos a chamado do irmão, o teatrólogo Artur Azevedo. Estudou na Academia Imperial de Belas-Artes e logo passou a colaborar, com caricaturas e poesias, em jornais e revistas. Mesmo morrendo novo, ele criou uma obra  bastante variada, com 14 livros publicados e oito peças de teatro, isso, sem contar o seu trabalho como jornalista, diplomata e caricaturista entre outras coisas.

Pois é, o brother tinha que ser jornalista, hein. De acordo com o que se sabe dele, ele ia aos locais onde imaginava as suas histórias e mergulhava naquela realidade, se misturando às pessoas que inspiravam os seus personagens. Dizem que ele os desenhava em papel cartão, os recortava, criando bonequinhos e os usava como em um teatrinho de fantoches para criar suas histórias. Além disso, outra fofoca é a de que ele escrevia os seus textos de uma paulada só, sem revisar nem nada… (um dia eu chego lá!)

Aluísio Azevedo

Agora, vamos voltar à virilha. Pára e pensa, tenta voltar ao tempo em que você se encontrava na puberdade e tudo é sexo. Para os meninos é bem fácil. Já para as meninas… Ah, também é, vai. Ou vocês querem dizer que só passaram a pensar em sexo depois dos 18 ?   O_õ    Nessa fase, todos temos encrustados na gente bombas atômicas de insegurança, curiosidade, hormônios, espinhas, sensações novas e mudanças no corpo que deixam a gente quase que em transe. Sendo assim, penso que essa é a idade perfeita para se ler um romance naturalista. (Naturalista? Calma, a gente já chega lá.)

(Uma curiosidade interessante:  O Cortiço foi o primeiro livro brasileiro a tratar de um relacionamento lésbico – isso em 1890! Chupem, puritaninhos de m%¨&!)

O trecho seguinte fala sobre a descoberta do sexo, por uma donzela, que tem um sonho erótico debaixo de uma mangueira. Agora eu penso: será que ele escolheu essa árvore por conta do tom sexual que a manga tem? Fica a pergunta no ar.

A borboleta não pousou; mas, num delírio, convulsa de amor, sacudiu as asas com mais ímpeto e uma nuvem de poeria dourada desprendeu-se sobre a rosa, fazendo a donzela soltar gemidos e suspiros, tonta de gosto sob aquele eflúvio luminoso e fecundante. Nisto, Pombinha soltou um ai formidável e despertou sobressaltada, levando logo ambas as mãos ao meio do corpo. E feliz, e cheia de susto ao mesmo tempo, a rir e a chorar, sentiu o grito da puberdade sair-lhe afinal das entranhas, em uma onda vermelha e quente. A natureza sorriu-se comovida. Um sino, ao longe, batia alegre as doze badaladas do meio-dia. O sol, vitorioso, estava a pino e, por entre a copagem negra da mangueira, um dos seus raios descia em fio de ouro sobre o ventre da rapariga, abençoando a nova mulher que se formava para o mundo.

Agora, uma descrição sobre Rita Baiana, uma das protagonistas que encarna perfeitamente o estereótipo de mulata brasileira.

“Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui. Ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas de fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras, era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, e muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras, embambecidas pela saudade de terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro da sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantaridas que zumbam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca.”

E uma das passagens que mais mexeu comigo, no alto dos meus 15 anos. Henrique, um rapazote, é seduzido pela esposa de um amigo de seu pai, dona da casa aonde está morando para daí algum tempo, entrar na escola de medicina.

O Botelho, com a sua encanecida experiência do mundo, nunca transmitia a nenhum dos dois o que cada qual lhe dizia contra o outro; tanto assim que, certa ocasião, recolhendo se à casa incomodado, em hora que não era do seu costume, ouviu, ao passar pelo quintal, sussurros de vozes abafadas que pareciam vir de um canto afogado de verdura, onde em geral não ia ninguém.

Encaminhou-se para lá em bicos de pés e, sem ser percebido, descobriu Estela entalada entre o muro e o Henrique. Deixou-se ficar espiando, sem tugir nem mugir, e, só quando os dois se separaram, foi que ele se mostrou.

A senhora soltou um pequeno grito, e o rapaz, de vermelho que estava, fez-se cor de cera; mas o Botelho procurou tranqüilizá-los, dizendo em voz amiga e misteriosa:

— Isso é uma imprudência o que vocês estão fazendo!… Estas coisas não é deste modo que se arranjam! Assim como fui eu, podia ser outra pessoa… Pois numa casa em que há tantos quartos, é lá preciso vir meterem-se neste canto do quintal?…

— Nós não estávamos fazendo nada! disse Estela, recuperando o sangue-frio.

— Ah! tornou o velho, aparentando sumo respeito: então desculpe, pensei que estivessem… E olhe que, se assim fosse, para mim seria o mesmo, porque acho isso a coisa mais natural do mundo e entendo que desta vida a gente só leva o que come!…

Se vi, creia, foi como se nada visse, porque nada tenho a cheirar com a vida de cada um!… A senhora está moça, está na força dos anos; seu marido não a satisfaz, é justo que o substitua por outro! Ah! isto é o mundo, e, se é torto, não fomos nós que o fizemos torto!… Até certa idade todos temos dentro um bichinho-carpinteiro, que é preciso matar, antes que ele nos mate! Não lhes doam as mãos!… apenas acho que, para outra vez, devem ter um pouquinho mais de cuidado e…
(…)

E, como já estivessem distantes de Estela, segredou-lhe em tom protetor: — Não torne a fazer isto assim, que você se estraga… Olhe como lhe tremem as pernas!
(…)

— Olhe, continuou, acariciando-o sempre; não se meta com donzelas, entende?… São o diabo! Por dá cá aquela palha fica um homem em apuros! agora quanto às outras, papo com elas! Não mande nenhuma ao vigário, nem lhe doa a cabeça, porque, no fim de contas, nas circunstâncias de Dona Estela, é até um grande serviço que você lhe faz! Meu rico amiguinho, quando uma mulher já passou dos trinta e pilha a jeito um rapazito da sua idade, é como se descobrisse ouro em pó! sabe-lhe a gaitas! Fique então sabendo de que não é só a ela que você faz o obséquio, mas também ao marido: quanto mais escovar-lhe você a mulher, melhor ela ficará de gênio, e por conseguinte melhor será para o pobre homem, coitado! que tem já bastante com que se aborrecer lá por baixo, com os seus negócios, e precisa de um pouco de descanso quando volta do serviço e mete-se em casa! Escove-a, escove-a! que a porá macia que nem veludo! O que é preciso é muito juizinho, percebe? Não faça outra criançada como a de hoje e continue para diante, não só com ela, mas com todas as que lhe caírem debaixo da asa! Vá passando! menos as de casa aberta, que isso é perigoso por causa das moléstias; nem tampouco donzelas! Não se meta com a Zulmira! E creia que lhe falo assim, porque sou seu amigo, porque o acho simpático, porque o acho bonito!

Mas esse tom sexual não está aio à toa. Azevedo tinha um jeito todo interessante de descrever as pessoas e os cenários, dava características orgânicas aos cenários e animais aos personagens, o que justifica a descida moral deles e a busca da saciedade dos seus instintos mais naturais. O Cortiço tem vida. Isso se chama “naturalismo(não confundir com naturismo, que é andar peladão!) – uma das coisas que fazem a gente estudar no colegial.

Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pêlo, ao contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sair sem tréguas. Não se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto das hortas.”

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Um comentário em “O Cortiço

  1. Chloé
    1 de agosto de 2011

    minha vó ligou e disse que o texto está PUTA QUE O PARIU muito bom
    e que ela pensou exatamente há mesma coisa quando leu há uns 345 anos atrás

    🙂

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Publicado às 22 de julho de 2011 por em Cultura in(útil), Literatura e marcado , , , .
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