MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Meus filhos vão ouvir rap

não precisa correr, não é assalto

Vida loka, coisa de bandido, motivo de chacota. É assim que o rap é conhecido entre o meio que eu vivo. Longe dos shows e da cultura hip hop que ferve fora da grande mídia e algumas poucas vezes dentro dela, é assim que meus amigos costumam tratar o rap. A coisa é tão feia que eu já ouvi de um professor meu (de uma faculdade de jornalismo, pra você ver) que eu não devia ouvir rap, que não é uma coisa “da minha realidade” e que eu “não preciso disso”, devia procurar “coisas melhores”.

Esse ano a periferia tá aparecendo um pouco mais, Criolo, Emicida, Rael da Rima, Flora Matos… Tão aí ganhando destaque e indo parar no Jô, no Disk MTV, no Rock in Rio, Planeta Terra etc. Acho um puta mérito, mas  é preciso fazer muitas concessões pra ganhar isso aí: clipes mais bonitos, influências de outros ritmos, letras mais “baladeiras” (vide Helião com Don Pixote) e, juro por deus que usaram esse termo numa matéria da Revista Época, um “rap colorido”. Não que eu seja nenhuma purista, nem manjo tanto assim na real. Mas é legal aproveitar esse destaque todo pra lembrar das raízes.

Tão legal que eu nem consegui acreditar no line-up do festival Black na Cena: Public Enemy, Banda Black Rio, Lee Perry, Jorge Ben, Naughty by Nature, George Clinton, Racionais MC’s. A história do hip-hop e da cultura negra ali, ao vivo. De emocionar…

Com 50 reais a meia-entrada (justo, pelo line-up, mas ainda caro pra muito assalariado como eu), eu e meu namorado compramos ingressos pro sábado e pro domingo. A expectativa, que era alta, foi até superada. Falando da parte mais fácil primeiro, a organização do evento foi impecável: sem filas pra nada, comida boa, cerveja gelada e banheiro na medida do possível OK. A pista VIP era pequena e o som estava alto e limpo (toma essa SWU), com cada grave sacudindo tudo e te fazendo ainda mais feliz por estar lá. A Matilha Cultural estava lá com um stand, junto com outras ONGs e coletivos, lembrando que, além da música, há muito no que se pensar, seja o desmatamento, seja o acesso a cultura. Destaque também pra Thaide representando ora como MC do evento, ora cantando seu clássicos com Funk como Le Gusta e numa participação histórica no show do Public.

Agora sobre os shows, vai ser difícil dar uma opinião concisa, já que as vezes eu me sinto uma branquinha comédia cantando A Vida é Desafio e outras tô lá arrepiada pensando ~que loucura.

Queria que alguns amigos que não conhecem nem fazem questão de conhecer a música negra estivessem lá pra se arrepiar com os solos do guitarrista do Public Enemy. Pra ver os baixos insanos da banda do Lee Perry e Dexter em uma de suas primeiras apresentações depois que ele foi solto da cadeia cantando Eu Sou Função e Oitavo Anjo. E também Criolo, aquele que muita gente prefere agora porque não canta mais só “rap”, reverenciando Banda Black Rio e cantando bonito junto com RZO. Pra fechar o sábado, Jorge Ben botando pra dançar todo mundo e falando de novo que sim, negro é lindo.

aumenta o volume que é rap do bom!

Eu só não gostei mesmo da apresentação do Marcelo Yuka, não por ele, mas a vocalista (com uma coroa na cabeça, poderia facilmente estar numa banda indie) tentava entoar hits do Rappa como Lado B Lado A sem nem um pouco da energia do Falcão. Tirando isso, só alegria e nenhuma briga num festival onde, olha só, estariam todos os ~marginais e maconheiros~ da cidade. Não sei mesmo como a polícia aguentou ser aloprada por tantos músicos diferentes durante tanto tempo.

Antes do evento até rolou um espaço na mídia, através de parcerias com a Trip e uma ou outra entrevista. Mas depois não vi nada, com exceção de uma boa crítica sobre o Racionais escrita pela Vivian Whiteman na Folha de S. Paulo. Será que um festival que fala tanto de um passado tão marcante e decisivo pra identidade de tanta gente não merecia mais? Ou será que fui só eu que me emocionei com tanta gente orgulhosa de ir dançar com suas camisas largas e cabelos crespos? Será que 12 mil pessoas cantando em coro a música de um ex-preso não merecem mesmo uma notinha que seja?

Eu sou branca e sofro preconceito por gostar de rap, sempre de outras pessoas de pele clara, que não respeitam Racionais e Facção, mas acham lindo show de rap no Studio SP. Obviamente, eu não acho que todo mundo é obrigado a gostar como eu, mas pelo menos respeite quem luta pra periferia ser um lugar melhor e faz parte de um dos movimentos culturais mais importantes e menos apoiados do Brasil.

Contra tudo e todos, uma luz negra brilhou no Anhembi nesse fim de semana, misturando cabelos crespos, lisos, rap, samba, funk e mostrando que sim, ainda há tempo.

Ps: para enriquecer esse eterno debate sobre rap (quem é verdadeiro, quem se vendeu etc etc), recomendo a leitura desse post do blog do Alessandro Buzo, agitador cultural, escritor e repórter com muito pra ensinar.

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8 comentários em “Meus filhos vão ouvir rap

  1. Alessandro Buzo
    27 de julho de 2011

    Da hora…..

  2. fernanda
    27 de julho de 2011

    adorei o post, mas tenho que cobtrariar a questão de que não saiu na imprensa !! Vi o evento em todos os jornais e revistas, inclusive com uma capa incrivel no guia da folha. Os portais tbem estão com toda cobertura, vale a pena dar uma olhada!!!!!!!

    • Chloé
      27 de julho de 2011

      Verdade Fernanda, vi o Guia da Folha….
      Antes do evento teve bastante coisa mesmo, agora depois, realmente não vi quase nada, tirando agências de notícia.
      Vou procurar melhor, valeu pela dica 🙂
      Bjs!

  3. Gabriel
    27 de julho de 2011

    Que orgulho *-*

  4. Sonia
    27 de julho de 2011

    Oi Chloé, adorei o post também, mas sou obrigada a concordar com a Fernanda. A mídia cobriu em peso o evento e durante e depois do festival muitas matérias foram publicadas. O festival saiu nos principais veículos impressos pós evento e nos principais portais, sempre com críticas super positivas. Parabéns à organização do evento e à assessoria responsável pela divulgação. Torço para que nos próximo ano o evento aconteça e seja ainda melhor! PS: também sou uma branquinha fã de rap e hip hop.

    • Chloé
      27 de julho de 2011

      Sônia, sua linda!
      Verdade, eu me equivoquei porque realmente procurei mais na internet e nos impressos só vi a Folha, que falou super positivamente.
      E também, acabei comparando com Rock in Rio, SWU, esses eventos que geram mídia espontânea sabe?
      Beijo e obrigada!

  5. Mônica Silva
    27 de julho de 2011

    chlouiiiiiiiiiiiiiii! Demais…curti muito. Hoje mesmo eu e Sheila comentávamos sobre o preconceito com o Festival.
    ah, posso replicar em meu blog??? http://www.mafins.blogspot.com ??? bjo

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Publicado às 27 de julho de 2011 por em Música e marcado , .
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