MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

(Luto)Ray C. Anderson “Ajudar a salvar o planeta é um bom negócio”

Essa noite, olhando despretensiosamente para o meu mural no Facebook, acabei me deparando com uma notícia muito triste.

“Hoje nós perdemos um amigo querido e um excelente líder. Ray, nós sentiremos muito sua falta, e nunca nos esqueceremos de você!”

Apesar de ser uma frase direta do perfil da empresa na rede social, procurei mais uma fonte pra ter certeza. Confirmei a notícia no Huffington Post (Ray Anderson Dies: Green Business Leader Dead At 77)

A tristeza me invadiu. Mas por que um empresário americano lá de Atlanta, Georgia (EUA) me faria sentir sua morte?

Meu caminho cruzou com Ray em novembro de 2007. Na verdade, em uma manhã também despretensiosa, véspera de feriado, o meu editor disse – um tanto quanto entusiasmado – que eu iria entrevistar Claude Ouimet, vice presidente da InterfaceFLOR para  Canadá e América Latina. Eu com 19 anos tentei entender o seu entusiasmo. Eu sempre adorei fazer entrevistas e conversar com um vice presidente canadense de uma multinacional – a maior fabricante de carpete modular no mundo e que faturou em 2006 U$1bi – me empolgava. Mas minha empolgação era –  e eu só entendi isso mais tarde – pelos motivos errados.

Em primeiro lugar, se você acha que o pessoal da América do Norte é ‘frio’ ou pouco simpático, está redondamente enganado. Com os olhos claros bem abertos, armado de um sorriso e simpatia fora do comum, Ouimet, em sua palestra no Instituto Ethos e depois em uma entrevista, não só apresentou a empresa (leia a entrevista aqui), mas defendeu o porquê uma empresa que usa petróleo como matéria prima pode sim se preocupar em ser ambientalmente responsável e que isso aumenta os lucros, cortando gastos, otimizando processos e atraindo novos clientes. Ok, eu ouvi discurso parecido algumas vezes de executivos de tudo quanto é seguimento.

Mas a empolgação do pequeno canadense ia além, ele falava apaixonadamente do CEO da empresa, seu chefe, que em 1994 – quando ninguém falava sobre o assunto –  começou toda uma revisão de conceitos sobre sustentabilidade e sobre o nosso relacionamento com o planeta. E assim, ele brigou praticamente com todo mundo (investidores, concorrentes, clientes et cetera) para continuar com a sua crença, com seus valores.

E isso, muito além de um empresário, é a atitude de bons e  – muito poucos – homens e mulheres.

Depois de aproximadamente meio ano, conheci Ray C. Anderson pessoalmente, na décima conferência anual do Instituto Ethos…e sabe aquela pessoa que te passa uma boa energia logo de cara? Fizemos uma rápida entrevista, meia hora, 20 minutos, não lembro. Eu estava empolgado. Claro, não é todo dia que você tem a oportunidade de conversar com um CEO milionário, muito inteligente, perspicaz, corajoso e bom.  Porém, havia algo novo nesse sentimento.

No meio da nossa conversa,  percebi o motivo do entusiasmo do meu editor quando a oportunidade de entrevistar o Claude se apresentou.

A empresa era uma prova de que boas pessoas conseguem resultados econômicos. Eu estava conversando com alguém com princípios, que ia além dos ganhos materiais para se firmar nos seus valores que miravam um bem estar comum.

Me coloquei no lugar de Anderson – tentei. Quando ele decidiu não agredir mais o meio ambiente e nessa manobra perder clientes, produtividade, status…dinheiro, eu faria o mesmo? Talvez em uma atitude impensada, um surto de idealismo, sim. Porém conforme os meses, talvez anos vão passando e você vê o dinheiro fora do seu caixa, você continuaria na mesma posição? A Interface passou por um período de dois anos até melhorar o quadro depois da mudança de mentalidade.

Eu não sei o que dizem os manuais de administração, mas ele o fez, e com o tempo, alcançou resultados.

Ray C. Anderson

Quando o mercado mostrou-se pré-disposto a fazer negócios de uma forma diferente. O primeiro sinal de que uma postura ambientalmente responsável fazia diferença para a rentabilidade da empresa veio quando fechamos um negócio que sem essa nova política, poderíamos nunca ter fechado. Uma gerente de vendas japonês nos ligou um dia e fez um pedido de 60 mil metros de carpete para a sede da sua empresa em Tóquio. Essa gerente esteve em Chicago e ouviu meu discurso sobre a mudança de paradigmas da Interface e convenceu o CEO da empresa a fazer negócios conosco mesmo com toda a diretoria contrária à decisão.


Hoje, eu sinto a morte de um senhor, com a idade do meu avô, que fez muito mais por todos nós, mudando a mentalidade e um padrão de fazer negócios, do que a gente imagina. Eu sou grato. Descanse em paz, Ray C. Anderson.

Abaixo, trecho da matéria que saiu na Gazeta Mercantil em 2008

Nos Estados Unidos, o debate da sustentabilidade aplicada ao negócio se divide entre antes e depois de Ray Anderson. Fonte de inspiração para novos líderes, o fundador e hoje CEO da InterfaceFLOR, uma das maiores fabricantes de carpete do planeta, tem andado o mundo empunhando a bandeira de que os negócios, mais do que gerar lucro, podem e devem resultar em valor para a sociedade e para o planeta. Em entrevista exclusiva à Idéia Socioambiental durante a Conferência Internacional de Empresas e Responsabilidade Social, promovida pelo Instituto Ethos, Anderson conta como começou, em 1994, a mudar a forma de pensamento de seus 4000 funcionários e a sua própria para enfrentar os novos dilemas econômicos, ambientais e sociais. Na época, com 60 anos de idade ,  ele foi questionado pelos clientes sobre como sua companhia lidava com os impactos ambientais gerados por produtos que dependem de combustíveis fósseis. Em 21 anos no negócio nunca havia pensado no assunto.

Estimulado pela cobrança dos consumidores e influenciado pela leitura do livro “The ecology of commerce”, de Paul Hawken, decidiu construir as próprias respostas, tarefa para a qual precisou converter funcionários e parceiros a uma nova lógica, baseada no conceito do triple bottom line.“A economia precisa ser reescrita. Precisamos inserir valores éticos no mercado e isso exige uma mudança radical de regras no sentido de harmonizar a tecnoesfera com a biosfera. No entanto, temo que ainda soframos alguma dor até a mudança completa”, afirma. Em 14 anos adotando práticas ambientalmente responsáveis, a Interface conseguiu reduzir 88% (em  toneladas   absolutas ) das emissões de gás de efeito estufa e 80% no uso de água em relação a 1996. Isso ocorreu com um aumento de dois terços nas vendas e de 100% no faturamento. Segundo Anderson, além de rentável para o negócio, a sustentabilidade motiva os trabalhadores. “Hoje, ninguém mais vai à minha empresa só para fabricar e vender carpetes. Vai também para ajudar a salvar o planeta”, diz.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 9 de agosto de 2011 por em Textos e ensaios....
%d blogueiros gostam disto: