MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Segunda-feira num acorde de violão

As paredes eram velhas conhecidas. Cada corredor, o sentido das escadas rolantes, a fila na bilheteria. As pessoas, ziguezagueando como formigas, eram todas igualmente diferentes. Era um coletivo idêntico de rotinas e histórias particulares. E meus pés, que antes tanto passaram apressados por ali, hoje pareciam perdidos. Cada passo parecia levar meus tênis sujos a mergulhar numa poça de saudade. Não faz mesmo muito sentido esconder as lágrimas se a gente não acredita que alguém vai entender, né? Só escrever faz sentido. As palavras sempre entendem.

E nos meus fones de ouvido, uma voz entendia também. “Sepulcral”, ouvi dizer dessa voz. Era mesmo muito grave e conseguia imprimir uma solenidade impressionante, qualquer fosse a frase que ele cantava. Mas não acho que “sepulcral” seja a melhor palavra. Ele cantava com o tal do sentimento do mundo de que o poeta falou.

Many times we’ve shared our thoughts
but did you ever, ever notice
the kind of thoughts I got?
Well, you know, I have a love,
a love for everyone I know
and you know I have a drive
to live, I won’t let go
but could you see its opposition?
Comes rising up sometimes
that is dreadful and imposition
comes blacking in my mind
And then I see a darkness

Não era gospel, não era country, entende? Sua voz foi feita para cantar lá pros anjos que receberam o seu irmãozinho quando morreu. Ele soube a vida inteira que ia encontrá-los lá, os anjos, o irmão e seu perdão e, por último, a June. E foi precisamente num 12 de setembro, em 2003, que ele partiu desse mundo.

Antes disso, ele juntou 71 anos de histórias. Nascido numa fazenda pobre do Arkansas, nos Estados Unidos, a violência da vida lhe causou mais cicatrizes do que sua juventude poderia aguentar.

Mas talentoso como era, ele conseguiu um contrato com a gravadora Sun Records – a mesma de Elvis Presley e Jerry Lee Lewis – e escreveu suas dores para o mundo. Se casou. Teve uma porção de filhas. Se divorciou. E se afundou em drogas, também. Foi preso algumas vezes – mas nunca cumpriu pena. E adorava, adorava fazer shows na prisão. Agia como um verdadeiro “rockstar country”, se é possível lhe atribuir algum rótulo.

Voltou a andar a linha. Casou de novo, com o amor da sua vida. Tiveram um filho, escreveram juntos.

Participou de séries da TV. Mudou de gravadora. Compôs álbuns lindíssimos e, inclusive, fez algumas versões cover que são verdadeiras criaturas a dar lições a seus criadores -como essa aqui, por exemplo.

Mas no fim, cantava como se fosse desde sempre o velhinho que se tornou nos últimos anos. Em cada ruga, uma compaixão meio religiosa pelo mundo – e essa compreensão meio triste da vida. Mas ainda, e mais do que nunca, solene como que sábia, grave como que respeitosa. Johnny Cash morreu para viver para sempre. E hoje, ele me faz companhia.

Se você quiser conhecer um pouquinho mais sobre Johnny, pode ler a graphic novel “Johnny Cash: I see a darkness”, feita por um alemão chamado Rheinhard Kleinst. Ali estão ilustrados alguns anos de sua vida. Já uma outra fase está retratada em “Johnny e June” (“Walk the line” no título original), um filme dirigido por um americano chamado James Mangold. E ainda assim… Você nunca pode conhecer realmente um músico se não parar pra ouvi-lo com o coração.

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Um comentário em “Segunda-feira num acorde de violão

  1. Sônia Lins
    13 de setembro de 2011

    O olhar terno que você lançou numa história tão humana me conquistou!

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Publicado às 12 de setembro de 2011 por em Música e marcado , .
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