MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Clássicos são clássicos por um motivo

Você, amigo cultão, provavelmente conhece esse senhor por ele ter defendido que transar drogas podia ser legal para sacar melhor o que acontece no mundo. Em 1957. Experimentando mescalina, tipos LSD, Aldous Huxley escreveu uma de suas obras mais conhecidas, As Portas da Percepção.

Mas, antes mesmo dele começar a escrever sobre o que mais tarde você conheceria como psicodelia, ele mostrou em 1928 que sua percepção já estava afiada, e bem, em O Contraponto. Aqui, através de muitas e muitas páginas, Huxley conquista todo o afeto do leitor, ainda que não imediatamente. Eu explico.

quanta receptividade

O livro é grande, grosso e geralmente velho. Nas primeiras páginas, a história de Walter Bidlake, um cara sonhador e que vive em busca de um ideal romântico (o que acontece com outras personagens também) querendo largar a mulher grávida em casa pra ir sair com outra que na verdade é uma periguete refinada. Com o tempo, você se apega a cada um dos personagens, e nem percebe o tanto de linhas e páginas gastos descrevendo a história de um por um. Quando você, leitor querido e esperto, já está todo envolvido na vida de um artista como o Mark Rampion, se vê mergulhando na relação entre a Elinor e o Philip Quarles. E aí, achando que já era uma puta obra genial, descobre que o que tinha tudo para ser um romance “cerebral”, de descrições longas e flashbacks gigantes, no finalzinho vira um romance completo, com ação, suspense, morte (ops!) e ~altas aventuras~.

Huxley distribui pelo livro uma série de teorias, geralmente discutida pelas personagens intelectuais, que não são poucas. Uma delas me chamou atenção, é de Philip Quarles, já citado aí em cima. Pra te situar, Philip é um escritor que é meio alheio do mundo e não consegue demonstrar sentimentos por ninguém, mas tem amigos, esposa e vida social então OK. Em uma de suas anotações, ele diz que a civilização industrial basicamente não quer que você seja nada além de um bancário, um operário, ou seja, alguém especializado. Ele justifica isso dizendo que é óbvio que “o sistema” julgue sem importância que o homem vá além da especialização, já que as outras partes como sua sensibilidade, emoção e intuição obviamente não vão te deixar mais rico do que fazer um MBA. Não sei se me fiz entender, mas enfim, vale a pena ler e conhecer.

Fora que depois o Rampion, que é outro das personagens do livro, diz que não importa se o regime é comunista, capitalista, liberal, que todos levam a sociedade direto pro inferno, o que muda é o meio de locomoção. Me desculpem comunistas ou seja lá o que forem, mas a gente tem que amar um cara assim né?

Muitas e muitas páginas e algumas vontades de abandonar o livro depois, posso recomendar mesmo que você leia sim O Contraponto, e comece daí a abrir as portas da sua percepção.

Anúncios

5 comentários em “Clássicos são clássicos por um motivo

  1. reginapinheiro
    12 de outubro de 2011

    ahahah tá uma delícia! Nasci em 46, portanto conheço bem este senhor…Island ainda (eu, vovó), recomendo para os que estão iniciando os questionários (ou questionamentos), tão TÂO este senhor é… não amar, Chloè, não dá. Regina. E tem mais.

  2. Leandro Maurício Batista Pinheiro
    13 de outubro de 2011

    ai que saudades, olhar o mundo sem a sensação do dejavù, navegando em direção de expectativas mil, do inusitado…..

  3. Leandro Maurício Batista Pinheiro
    13 de outubro de 2011

    ai que saudades, olhar o mundo sem a sensação do dejavù, navegando em direção de expectativas mil, do inusitado…..

  4. Suzi
    13 de outubro de 2011

    Nossa, me senti ofendida por não conhecer esse clássico. Não sou cultona nem leitora esperta, fiquei até sem vontade de ler o texto até o fim, quem dirá esse livro ae! hisuahiushuaihs

  5. Pilker
    17 de outubro de 2011

    A primeira versão que peguei deste livro era essa da foto.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 12 de outubro de 2011 por em Cultura in(útil), Literatura e marcado , , .
%d blogueiros gostam disto: