MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

A luz de Tieta

Começo por avisar: não assumo qualquer responsabilidade pela exatidão dos fatos, não ponho a mão no fogo, só um louco o faria. Não apenas por serem decorridos mais de dez anos mas sobretudo porque verdade cada um possui a sua, razão também, e no caso em apreço não exergo perspectiva de meio-termo, de acordo entre as partes (…) Agradecerei a quem me elucidar quando juntos chegarmos ao fim , à moral da história. Se moral houver, do que duvido.

É assim que começa o livro, é assim que começa o filme é nesse sotaque que se dão os fatos. Tarefa difícil analisar um pedaço da obra de Jorge Amado que ano que vem completa 100 anos de nascimento. De tão saborosa, picante, doce e quente, meus dedos estão lambuzados demais entre as páginas desse livro pra me entregar a tal tarefa.

No momento não posso, não consigo sobrevoar tudo e julgar o que penso, na verdade não penso. Meus olhos correm as frases, as devoram e ainda assim, estou apenas na metade desse livro de mais de 600 páginas.

Li em algum lugar que Jorge Amado revolucionou a maneira de se escrever aqui no Brasil. Sou obrigado a concordar. Nada que tenha lido até aqui me arrebatou dessa maneira.

Lembro de ver, no final da infância, início de adolescência – a idade sinceramente não recordo – trechos do filme de 1996 (Tieta do Agreste), ouvir falar da novela e assistir ao clipe abaixo.

Já encontrei em meio aos livros antigos de minha casa Tereza Batista cansada de Guerra, mas não o li, devolvi para a prateleira, ledo engano de alguns anos atrás. Mas não é só a minha origem, meu pai nascido na linda e pequenina Caém, na Bahia. Minhas viagens à Jacobina quando criança, trepar em pé de manga, de caju, tomar suco de acerola, de pitanga, comer avoadô, biju, doce de calda… ah, quantas saudades dos meus avós, família e dos meus amigos, verdadeiros primos que ainda tenho por lá. Não, não é porque o Jorginho tá me levando à infância com toda a sua descrição da Bahia é algo a mais.

E não vou falar de Dona Flor e seus dois maridos, Capitães de Areia ou Gabriela, Cravo e Canela. Esse último eu comprei junto com Tieta. Me custaram os olhos da cara numa livraria de Araguaína, no Tocantins, paguei com um sorriso, se já tivesse lido os livros, pagava dando risada. Ô beleza!

Eu ia rir ao lembrar que interrompendo a narrativa, esse simpático velhinho baiano pára tudo e traz um capítulo inteiro com uma receita bem assim.

Capítulo culinário onde o autor oferece como brinde aos leitores na intenção de segurá-los, secreta receita de frigideira de maturi de autoria de ilustre Cordon-Bleu

Como sabem ou não sabem, maturi é o nome dado à castanha do caju quando ainda verde. Nós, baianos mulatos gordos e sensuais, cultivados no azeite amarelo de dendê, no branco leite de coco e na ardida pimenta, utilizamos maturi num prato raro e de especial sabor. Aliás em mais de um, pois com a castanha verde do caju pode-se preparar moqueca ou frigideira(…)Fúlvio d’Alambert, confrade e amigo, por pouco tem um enfarte:
– Receita de comida? Assim, não mais? Ao menos para tapear a coloque num diálogo vivo e pitoresco entre a moça e a cozinheira, durante o qual esta última ensina a receita, de quando em quando interrompida pela paulista com perguntas e exclamações. Afinal, que pretende você nos impingir? Romance ou livro de cozinha?
– Sei lá! (Trecho do livro Tieta do Agreste)

E logo tasca a receita para só no próximo capítulo voltar à história. Que delícia. Sem perceber você lê o próximo e o outro ainda com água na boca.

Jorge Amado vai conversando, uma prosa boa, papinho bom que parece que vai contando um causo sentado na varanda, na sua rede, no calor brabo que faz lá na Bahia de todos os santos enquanto corta um naco de doce de banana ou “doce de puta” ou rapadura.

Não, mas não é só por conta desse estilo que a obra se torna interessante. Isso é só o jeito que ele cozinha. Existem ainda muitas camadas, muitos ingredientes pra dar esse sabor delicioso impresso em papel.

Lista de ingredientes
A personagem principal – Antonieta Esteves Cantarelli, Tieta do Agreste ou apenas Tieta. Pegue tudo o que você achar de sensualidade e quentura e personifique numa mulher. Assim é ela… ou pega a Sonia Braga nos tempos áureos. Pastora de cabras, mulher que aprendeu desde cedo a se defender sozinha e ir atrás do que queria, mesmo que isso fosse um caixeiro viajante…ou como disse o bêbado Bafo de Bode, “Que belo pé de buceteiro!” 

A história => Tieta Esteves, pastora de cabras é irmã mais velha de Perpétua, uma carola católica fanática. As duas são filhas de Zé Esteves. A caçula cagueta a irmã ao pai por ela dar o “xibiu” por aí. Tieta é espancada e expulsa de casa. Ela deixa Santana do Agreste. Depois de uns 20 anos Zé Esteves está pobre, se casou com a empregada e teve ainda mais uma filha. Perpétua viúva, mãe de dois filhos e ainda mais carola e fanática. Tieta sempre manda dinheiro pra família, mas nunca conta nada de como anda a vida. Todos pensam que ela é casada com um industrial comendador. Ela volta e traz a sua enteada, Leonora Cantarelli ou Nora. E volta com toda a sofisticação de mulher rica de São Paulo o que mexe com todo mundo de Santana do Agreste

O Cenário – Santana do Agreste. Cidadezinha do sertão baiano próxima ao mar. “Lugar bom para se esperar a morte”, frase de um caixeiro viajante. Pacato, com o clima bom e quase intocado pelo homem. Ainda com energia elétrica de gerador que se apaga às nove horas todas as noites. Cidade charmosíssima mas cheia de gente pobre e morrendo a cada dia por não acompanhar o crescimento da nação e das cidades do entorno… 

Misture tudo a um Brasil da décida de 1950 e 1960, às mudanças de hippies que amedrontam os mais velhos e conservadores da época, aos costumes em choque de gerações, à minissaias que escandalizam, à um sobrinho que vai vestir a batina de padre em alguns anos mas que se masturba na rede pensando na tia e sofre por ter medo da punição de Deus. Logo depois, coloque um secretário da prefeitura apaixonado por uma puta e não sabe que ela não é mais virgem. Mas antes de tudo, veja bem a família avarentíssima e cheia de cobiça. Leve tudo ao forno e devore as letras, uma após a outra. 

E enquanto estiver lendo esse livro, meu amigo, e pensar que sabe tudinho, do A ao Z, espere sua namorada falar…como mesmo?… “Nossa amor, ler esse livro tá te fazendo um bem ein(suspiro)”. Aí sim, camarada, quer dizer que você aprendeu o IpsiloneY“.

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5 comentários em “A luz de Tieta

  1. Pingback: Desabafo contra o pedantismo | Os Sem Biblioteca

  2. Pingback: Gabriela, Cravo e Canela | Os Sem Biblioteca

  3. Gabriel
    23 de maio de 2012

    “Homenagiei” muito a Sonia Braga vendo esse filme!

  4. Camille
    7 de novembro de 2012

    E muito boa o Texto amei

  5. Pingback: Queimaram os Capitães de Areia… mas não tem nada não | MIRANTE1

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