MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

… is “give peace a chance”

Na rua 1 West 72nd, New York, quase na esquina com a Central Park West Avenue, Upper West Side, Manhattan. Ele lê um trecho do livro “O Apanhador no campo de centeio”. Espera, as mãos suam. Os pensamentos não estão muito claros e a adrenalina faz com que seu estômago se aperte. Ele olha para o prédio imponente, de arquitetura eclética, que mistura inúmeros estilos mas aonde sobressai o Norte Germânico Renascentista. Ele espera em frente ao arco construído para os ricos do século 19 desembarcarem de suas carruagens se protegendo da chuva ou da neve.



Enquanto isso, John e sua esposa dão uma entrevista para a rádio RKO, no escritório deles, do lado de dentro do prédio. Na entrevista ele disse…

“I still believe in love, peace, I still believe in positive thinking(..)You have to give thanks to God, or whatever it is up there, the fact that we all survived. We all survived Vietnam or Watergate or the tremendous upheaval of the world. … The whole map’s changed and we’re going into an unknown future, but we’re still all here, and while there’s life there’s hope.”

Eu ainda acredito em amor, paz, eu ainda penso de forma positiva(…) Você precisa agradecer a Deus, ou o que quer que esteja lá encima, ao fato de que todos nós sobrevivemos. Sobrevivemos ao Vietnam ou Watergate ou a revolta tremenda do mundo. … O mapa inteiro mudou e estamos indo em direção a um futuro desconhecido, mas ainda estamos todos aqui, e enquanto existir vida, existirá esperança.”

Às 16h15 John e sua esposa saíram de casa. Eles iam ao estúdio terminar de mixar uma música dela. Um fã e amigo, Paul Goresh estava com eles e um outro personagem, que estava com um livro e um álbum na mão também esperava-os na calçada, Mark David Chapman.

Era comum fãs pedirem autógrafos na entrada do prédio. Nada de novo, como poderia ser diferente? Ele era uma parte de um grupo que já foi sim mais popular que Jesus Cristo.

Paul tinha ido visitar o casal de ídolos e depois amigos porque alguns dias antes tinha feito uma série de fotografias que talvez fossem ser impressas nos cartões de natal que eles mandariam para família e amigos. Ele estava com uma câmera  e  tirou uma foto, essa aí debaixo.

“Eu não o ouvi dizer nada. John se virou e o olhou. Ele estava segurando o álbum com as duas mãos e John disse, ‘você quer que eu assine?” Chapman assentiu com a cabeça. (…) Assim que ele começou a autografar o álbum eu estava com minha câmera, dei um passo pra trás e tirei uma foto, na verdade eu nem queria o outro cara no quadro. (…) Depois disso tirei uma foto de John se virando para Chapman, segurando o álbum e perguntando ‘Está tudo certo?’ Chapman assentiu, pegou o álbum e apenas se afastou sem nem mesmo se virar, na próxima foto as sobrancelhas de John estão levantadas como se dissesse ‘que estranho!'” (Paul Goresh)

Do lado de fora do Dakota tem uma cabine aonde fica o porteiro do prédio (olha a foto no começo desse post). O guarda usa um uniforme azul, naquela tarde, Jose Perdomo estava de serviço. Enquanto John ia embora com sua esposa, Chapman mostrou para Perdomo e Goresh que estava colocando o álbum atrás da cabine. Mas ninguém entendeu a situação.

Goresh perguntou, ” Por que você está colocando ele aí?” Chapman respondeu, “Estou apenas mostrando para vocês caso queiram saber depois…”


Em Londres, ano passado, há exatamente 366 dias, Paul, velho, com as bochechas caídas se senta em uma poltrona da casa grande. O frio de fim de ano inglês deixa tudo na penumbra. O Sir pega um copo de seu melhor uísque, aquele guardado. Melancolia é uma palavra muito fraca para o sentimento daquele dia. 30 anos tinham passado, mas muito mais desde que compartilhara uma risada ou um baseado com o amigo, seu melhor amigo. O que diabos tinha acontecido? Ninguém sabia, mas durante os anos 1970 eles se encontraram várias vezes. Mesmo depois das brigas, das cartas, do rompimento. Amor era a palavra certa. ele encara o copo, todas as lembranças correm seu cérebro. Mas elas correm pesadas, arrastam a respiração como acontece com os gênios, mas agora, um gênio incompleto. Ele levanta o copo, o frio lá fora, não na casa, mas o frio por conta do vazio no peito. “Wherever you are, John/Aonde quer que você esteja, John” e bebe o uísque…

Agora é noite, noite de outono nova iorquino, triste, tão triste em 1980 quanto em 2010. às 22h50 John e sua esposa descem do táxi. José Perdomo e um motorista de táxi enxergam Chapman em pé, na sombra do arco do prédio. Ono andava na frente de John, os dois em direção da portaria. John viu Chapman brevemente, mas continuou andando. Nesse ponto existem divergências. A mídia disse que Chapman pronunciou as palavras “Mr. Lennon”, assumiu uma postura de combate e atirou,  mais tarde, o próprio Chapman e testemunhas disseram no tribunal que não se lembravam dele ter dito nada.

Cinco balas calibre 38 com pontas ocas zuniram fazendo pombos voarem e riscando um traço luminoso na escura noite de outono Nova iorquina.

Aqui peço licença para explicar um pouco da genialidade grotesca humana. Construímos coisas lindas e outras depreciáveis. As balas de ponta oca calibre 38 que saíram do revólver de Chapman causam muito mais estrago do que balas comuns. Assim que elas entram em choque com o alvo a bala se abre dentro do corpo da vítima e vai ferindo tudo o que encontra pela frente. Inteligência idiota essa nossa né?

A primeira bala perdeu o alvo, passou por cima da cabeça de John e acertou uma janela do Dakota. Mas as duas próximas acertaram o lado esquerdo das costas de Lennon e outras duas entraram no seu ombro esquerdo. Três, dos quatro projéteis que o acertaram saíram pelo seu peito criando sete ferimentos diferentes. Dois desses ferimentos foram fatais, acertaram o pulmão esquerdo que soprava o ar para ouvirmos tantas e belíssimas notas e a artéria subclaviana esquerda, perto de onde ela nasce da aorta.

Lennon sangrava demais, pelas feridas e pela boca. Ainda assim, conseguiu dar cinco passos e dizer, “I’m shot, I’m Shot” e caiu derrubando no chão algumas fitas cassete que ele segurava.

Perdomo tirou a arma de Chapman e a chutou pela calçada. Chapman tirou seu casaco e chapéu para quando a polícia chegasse vissem que ele não carregava nenhuma outra arma e sentou na calçada. Perdomo gritou, lágrimas nos olhos, incredulidade, “Você sabe o que você acaba de fazer?!” O assassino calmamente respondeu, “Sim, eu atirei em John Lennon”

Uma dupla de policiais, Steve Spiro and Peter Cullen, estavam na rua 72 com a Broadway   ouviram relatos de tiros sendo disparados em frente ao Dakota, foram os primeiros a chegar. Dois minutos foi o tempo que eles levaram. Outra dupla de policiais chegou alguns minutos depois, Bill Gamble e James Moran. Rapidamente colocaram o menino de Liverpool na viatura e correram ao hospital.

Dentro do carro Moran perguntou “Você sabe quem você é?” John acenou com a cabeça afirmativamente e tentou falar e logo desmaiou.

Dr. Stephan Lynn recebeu Lennon na emergência do hospital, sem pulso, sem respiração. Durante 20 minutos a equipe trabalhou, abriram seu peito e tentaram fazer massagem cardíaca manualmente, mas era tarde demais. “Mesmo que ele tivesse sido acertado dentro de uma sala de emergência, com uma equipe a postos para trabalhar, ele não resistiria a esses ferimentos”, disse Lynn. A causa do óbito, perda de cerca de 80% da massa de sangue do corpo.

23h15 do dia 08 de dezembro de 1980, John Lennon é declarado morto.

Um dia depois, no 09 de outubro, o mundo amanheceria triste, incrédulo, inquieto, choroso, vazio, pessimista. Como entender? Como?! Um fã, um louco, um pirado esquizofrênico. Atirando pelas costas, comum revólver, nome de um álbum dos Beatles, mas símbolo oposto à mensagem deles de paz.

Quando caio nesse pensamento digo, “é exatamente agora que temos que nos apegar ainda mais à mensagem dele. Quando nossos ídolos morrem, o que fica é a mensagem, o imortal fruto do pensamento genial.” Então, no lugar de querer vingança ao criminoso idiota, a todos os criminosos idiotas do mundo, vale lembrar de uma única frase:

ALL WE ARE SAYING IS GIVE PEACE A CHANCE

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Um comentário em “… is “give peace a chance”

  1. Nat
    12 de dezembro de 2011

    Incrível, incrível. De todos os textos que eu li em homenagem aos 31 anos desse acontecimento terrível, esse acabou comigo. Nada fácil de digerir.

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Publicado às 9 de dezembro de 2011 por em Música e marcado , .
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