MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Glücklich geburtstag São Paulo!

Este é um post para desejar feliz aniversário para a minha amada cidade, São Paulo, fundada em 25 de janeiro de 1554.

Você deve estar se perguntando por que diabos eu coloquei uma música alemã e um título em alemão para esse post. Explico.

Me considero bastante paulistano. Afinal, assim como quase todo mundo por aqui, sou um belo vira-latas. Não tenho raça definida, muitos paulistanos não o tem. Sou filho de um baiano, da cidadezinha de Caém, com uma mulher nascida e criada no Ipiranga e Sacomã. Meus avós maternos são filho de alemães e iugoslávos e filha de espanhóis.

Por algum motivo que eu não sei identificar, o núcleo da minha família tem um tino alemão mais apurado que os outros. Engraçado, quando íamos à Bahia visitar nossos avós, todos – inclusive minha mãe – nos acabávamos em vatapás e sarapatéus feitos pela minha querida tia Cida.

Estudamos – eu e meus irmãos – no Colégio Luterano São Paulo, no bairro do Moinho Velho. Lá tem alemão pra caramba. A segunda casa dos meus bisavós alemão e iugoslava foi lá, na Rua do Reno, e depois, eles passaram a morar do outro lado da Via Anchieta.

Ainda assim, minha avó tem um jeito todo marrento e pãodurinha espanhol. A tia dela, nossa Tia Catarina e suas primas, a tia Nena e a tia Neninha também participaram das nossas infâncias com seus quitutes e bolos e tourinhos de enfeite em suas salas.

Quando voltávamos da Bahia, era um tal de falar “òxente, paínho e maínha” até cansar.

E o que é São Paulo se não isso? Essa mistura?

Fiquei cinco meses longe, mas não foi como o pessoal da minha idade que fica alguns meses intercambiando em países cults como EUA, Canadá ou Inglaterra… não, eu fiquei 5 meses pelo interior de Goiás e Tocantins.

E cara, como eu senti falta de São Paulo. Passei a compreender o Brasil de forma diferente. Ainda mais importante, passei a ver São Paulo com olhos ainda mais atentos, apaixonados e romanticos.

Na nossa bandeira está escrito Non Dvcor Dvuco.

Que significa “Não sou conduzido, conduzo”. Ora, o que é mais alemão do que elevar o seu orgulho patriarcal ou provinciano à décima potência?

(Veja bem, nem sempre esse é um sentimento bastante ambíguo e deve-se tomar muito cuidado com ele. Acima de tudo, São Paulo precisa se orgulhar da sua capacidade de receber e deixar hipocrisia de lado, pois se não fosse por conta disso, o Brasil não seria tão grande)

Ainda assim, por conta disso começo com uma música alemã, cantada em São Paulo, em alemão, em coro por um bando de brasileiros?

E qual é a diferença quando é um show em língua inglesa ou francesa, diabos, até em japonês cantamos em coro. Como? Simples, a gente é – sim – poliglota.

São Paulo é como um grande satélite. Junto com seus imigrantes vem seus espetáculos, suas músicas, cantigas, fofocas, moda e culinária…

Ora, maior polo gastronômico do mundo.

Tudo aqui é grande, seus prédios, seus bairros, suas avenidas, suas aglomerações…

Nossos artistas e monumentos são grandiloquentes e cinzentos, nossos cemitérios são mais belos.

Nosso samba é mais classudo e elegante,  nosso rap é melhor, nossos roqueiros são mais roqueiros e nossos

Existe uma efervescência absoluta e incontrolável por aqui. Somos a grande colmeia do Brasil. Saímos de todas as portarias de prédios, terminais de ônibus e estações de metrô.

Não digo que todos os dias, no meio da nossa rotina dá pra regozijar com isso. Só quem enfrenta o metrô da linha vermelha Corinthians/Itaquera – Palmeiras/Barra funda sabe o quão assustador e chato é enfrentar o aperto e chateação com os olhos ainda vermelhos de sono.

Ainda assim, enquanto eu estava longe pensei e pensei. E cheguei  à conclusão de que cada uma daquelas pessoas apertadas nas composições é um poço de desejos, de fúria, de paixão, de coisas boas e ruins, mas acima de tudo, é uma força pujante, o torque desse grande motor, maravilha moderna, made in anywhere. Força intelectual ou braçal, não importa. Criamos.

O peão de obra cria um arranha-céu, uma professora inspira sonhos nas cabeças dos alunos, um frentista abastece o carro no qual o garoto vai levar a garota no primeiro encontro…

Cada uma de nós, abelhinhas operárias cria.

Se existe uma palavra para definir São Paulo ela está errada. Uma palavra é muito pouco para definir tudo isso.

Quando trabalhei na Vila Mariana, comprava bobagens para comer todos os dias em um mercadinho de uns coreanos bem peculiares, almoçava em um restaurante de chineses que servia feijoada.

Todo fim de tarde se abre um leque absurdo de possibilidades se abre à sua frente, de lugares badalados aos mais underground, tem para todos os gostos.

Não somos uma cidade maravilhosa, não, não varremos simplesmente nossos problemas e catalogamos nossa cidade como a melhor do mundo, eu não faço isso.

Mas a cidade só retribui o que damos a ela. Uma frase da Mariana define bem “São Paulo judia tanto da gente quanto a gente dela”.

Não consegui encontrar melhor síntese. Se sofremos com congestionamentos é por querermos todos e demais comprarmos carros e não darmos preferência a outros tipos de transporte. Se sofremos com as linhas de metrô insuficientes é porque demos atenção demais nos anos 1980 e 1990 para a aquisição de carros. Se sofremos com enchentes é porque ocupamos várzeas de rios, se sofremos com violência e problemas de saúde é porque não escolhemos melhor os nossos representantes.

Tudo é bem simples.

Ainda assim, desviando dos mendigos e prostitutas no centro, no período em que trabalhei na República, adorava olhar os prédios e pensar que há 450 anos, pessoas andam por essas ruas, pisam esse barro ou esse asfalto, nessas mesmas calçadas. No meio da multidão eu me protejo, sou só mais um, mas passo o resto da vida tentando levantar dos meus joelhos, assim como muitos de nós.

Ainda assim, é possível você se sentir só no meio da multidão. E quem disse que estar só é algo ruim?

São Paulo é carros, concreto, barulho, fumaça, aço, trens, metrôs, motos, buzinas, sirenes… Mas sobretudo é correria é gente, é China, Europa, Oriente Médio (Dá um pulo na Galeria Pajé), é EUA, é o que for, é o diabo que o carregue… (Ah, e é pizza, muita pizza :9)

Voltando do devaneio, que tal entender as possibilidades de melhora da cidade? Como você pode ajudar? Qual o potencial da cidade?

– De São Paulo, meu amigo? Possibilidade é a essência, só falta vontade. (Dá uma olhada nesse relatório – São Paulo 2022/IDEIAS, DIRETRIZES, INDICADORES E METAS PARA OS PRÓXIMOS 10 ANOS DA CIDADE)

Aqui o velho e o novo se encontram. 458 anos. Algumas rugas. Mas até que está bem inteirona. Na verdade, como uma vampira, vai se alimentando do sangue – e por que não? – do suor dos seus homens e mulheres e rejuvenesce a cada geração.

E aqui vão duas músicas pra sentir pelos ouvidos o que é São Paulo.

Há, você acha que eu não ia colocar “Trem das Onze” por aqui? Vá pro inferno se você pensa que qualquer retrato que seja de São Paulo pode dispensar isso.

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Publicado às 24 de janeiro de 2012 por em Cidade, Política, Textos e ensaios... e marcado , , , , , , , .
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