MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Diário de um Cajiano – #3 dia Pt.1 O médico e o Guzzo

O médico pega o bisturi e se prepara para fazer a incisão. As luvas brancas procuram o ponto de McBurney, situado dois terços da distância do umbigo à espinha ilíaca ântero superior direita.

O jornalista olha para a tela branca do computador que rapidamente vai ficando salpicada de letrinhas pretas em uma trilha da direita para a esquerda, de cima para baixo. Sujeito, verbo, predicado…

A incisão de McBurney deve ser a de escolha para a apendicectomia convencional. Ela dificilmente desencadeia uma hérnia incisional e dá acesso fácil ao apêndice. O médico estudou isso na faculdade e o professor dele também, e o professor do professor leram o mesmo artigo para aprender a fazer a mesma incisão. Experience with early operative interference in cases of disease of the vermiform appendix, esse artigo foi publicado na New York Medical Journal, em 1889. 

A confecção da matéria teve que ser inteiramente diferente de todas que fez antes e dos jornalistas antes dele. Ele teve que pensar em maneiras novas de se aproximar da fonte, as informações que pegou dela são novas, ninguém deu. Vai ser um furo. É a capa da revista dessa semana, totalmente diferente da capa da semana passada. A edição vai ser diferente da semana passada e da anterior e da anterior…

“Jornalismo não é como o curso de medicina que tem um conhecimento acumulado. Se você vai fazer uma cirurgia de apêndice, você vai cortar no mesmo lugar que os estudos dizem que vai dar certo etc. Para escrever, não tem como fazer a mesma coisa. Existem manuais de boa redação. Mas as fórmulas só vão até certo ponto.” José Roberto Guzzo ex diretor da revista Veja.

Jornalistas escrevem e devem escrever bem. Mas a atividade exige muito mais do que entender o terreno das regras do português, ela exige estilo, inteligência e repertório. A conversa com Guzzo durante o Curso Abril de Jornalismo girou em torno desse ponto na profissão e outro que trarei aqui em breve. “Vivência, experiência e prática são necessários para se escrever bem”, afirma.

A busca incessante do jornalista é a de cativar o leitor. De acordo com Guzo, que está na Abril desde 1968, o leitor tem que dizer ao final da matéria, “poxa, li algo interessante”. É muito simples, você tem que ganhar o interesse do leitor a cada parágrafo e para isso é preciso ler muito.

Lendo, você absorve algumas coisas como a maneira de descrever um personagem, uma cena, uma ação. Quanto mais você lê, mais ferramentas você junta na sua caixinha. E esse é um processo que leva anos. “Não fiquem nervosos de começar um livro amanhã e chegar a conclusão de que não aprenderam nada, não aprendi a escrever ainda. Eu mesmo aprendo até hoje”.

E ler boas revistas é um dever profissional, como um carpinteiro que carrega as suas ferramentas. “Você precisa escolher uma ou duas boas revistas e tentar entender como eles escrevem… só isso.

Sempre sentado e com as sobrancelhas encostadas nos olhos, Guzzo parece estar a todo momento com uma cara de interrogação, avaliando qual a sua reação e o que passa pela sua cabeça a cada frase que ele diz. De quando em quando, abre um sorriso quase infantil. Depois de alguns deboches e risadas, ele continua. E escrever bem vai ser uma habilidade, de acordo com Guzzo, cada vez mais disputada. “Vai chegar uma hora em que ninguém vai saber mais escrever direito. Hoje em dia existem executivos de primeira linha que não sabem escrever bem”.

José Roberto Guzzo – Foto de Julia Coimbra Rodrigues / http://noshedidnt.tumblr.com/

Segundo ele, vai valer ouro – tomara. Para ser um jornalista com uma vida interessante, bem pago, bem sucedido e com oportunidades, basta escrever bem.

Mas claro que nem tudo é simples. De acordo com Guzzo, depois que uma pessoa vira chefe em uma redação ela não escreve mais tanto quanto escrevia. Ele passa a dar ordens e não faz mais nada. “Vocês vão chegar a uma redação que o chefe pode não dar o menor valor para escrever bem, mesmo porque não sabem. Então acham que é desimportante. Vão dizer que alguma ideia não faz parte da forma da revista, que não atende ao público dela. Então é necessário se adaptar a chefia”.

Nesse caso, escreva por conta própria.

“Evite o chavão, fuja das palavras que ficam baratas”.

Um exemplo: Neymar tem um papel protagonístico no Santos. Não, o Neymar é o melhor jogador do Santos. E ponto.

E pra fechar,Sempre que seu chefe falar, quando você aparece com uma ideia nova para o formato do texto ‘mas isso a gente não faz, ou issso a gente sempre faz’, você está numa revista ruim”.

E na minha opinião – aos colegas que estão na faculdade – se seu professor tiver a mesma opinião em um trabalho seu… bom, já sabe né?

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Um comentário em “Diário de um Cajiano – #3 dia Pt.1 O médico e o Guzzo

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