MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Diário de um Cajiano – finalmentes – Marcelo Tas

Dez dias para terminar o Curso Abril de Jornalismo 2012.

Foram, até agora, quatro semanas tão pesadas intelectualmente que você começa a mesclar as lembranças em uma coisa só. O cheiro da redação, dos teclados de plástico dos Macs e dos PCs, ou do papel quente da impressora, mas principalmente o cheiro do papel de revistas, muitas, muitas revistas que passam de mãos em mãos, dormem sobre as bancadas ou nas nossas mochilas.

Pra fechar essa última semana recebemos a visita de um jornalista bastante conhecido. Uma figura nas infâncias de toda essa geração de jornalistas que estão entre os 26 e 21 anos.

Não é a primeira vez que eu vejo o Tas pessoalmente. Confesso que quando tinha 20 anos fiquei bem mais impressionado. Não porque ele diminuiu nem nada. Acho que talvez eu esteja com um pouco mais de confiança ou cansaço. Enquanto ele falava eu pensava no projetão que temos que entregar na semana que vem, na pré-apuração da PLUG (a revista anual do curso), na fala dele e principalmente em arrumar um emprego dentro da Abril.

Como dizia, eu vi o Tas na conferência do Instituto Ethos em 2009. Fiz algumas perguntas pra ele e escrevi esse texto. Ele usava um blazer preto e calças jeans escuras. Falava, há três anos, sobre o papel da internet… engraçado. A palestra dele não estava na programação que eu tinha. Peguei por acaso a palestra e decidi fazer a entrevista e como seria a matéria lá mesmo. Deu certo.

Hoje eu não falei com ele. Eu não tinha assunto pra tomar o seu tempo, nem o meu. Não me interprete mal. Por mim, eu cederia um dia inteiro pra conversar com ele dez minutos. Apesar dele ter a mesma aparência há anos, ele já é um senhorzinho e com muita experiência pra passar.

É que de vez em quando eu prefiro observar as coisas à distância. E foi nessa distância que o vi levantando o braço enquanto gesticulava e descobri que sua jaqueta bege era Dolce e Gabbana. Eu me pergunto se um dia o meu salário de jornalista vai me permitir comprar uma jaqueta dessas.

Devaneios pra lá. Vamos ao que interessa.

De início, ele contou a sua história adulta. Faculdade de engenharia da USP, editor do jornal da faculdade, amizade com Fernando Meirelles. Depois disso, criação da Olhar Eletrônico Vídeos. Isso tudo você vê por aí. O que você não vê é a conclusão que ele chegou. (Que vai ao encontro com o que Ben Hammersley nos disse há algumas semanas).

“A diferença é que algumas décadas atrás era difícil publicar o que produzíamos. A TV Gazeta foi o nosso Youtube, nos deu espaço para publicar nossos vídeos. Às vezes eu acho que é pouco valorizado o poder de publicação que se tem hoje”, diz Tas.

Fotos Julia Rodrigues

Um pensamento lógico agora, tudo o que temos em excesso é desvalorizado. E de acordo com o Varella/Prof.Tiburcio/Telekid existe uma desvalorização do poder de publicação que leva a se publicar muita porcaria por aí. “Por isso que às vezes o cara toma um baita susto em uma entrevista de trabalho quando fica sabendo que o entrevistador já sabe um monte de coisas sobre ele porque viu no Facebook. Ao mesmo tempo que uma loucura criativa publicada no FB pode ser um diferencial na hora da contratação de um profissional de comunicação”, explica.

Tudo está na rede. Afinal, você pode encontrar vídeos do Rá-Tim-Bum, Ernesto Varella etc. na internet. Ela é atemporal e “esse é o entendimento que as televisões ainda não têm e é um universo que eu nunca vivi antes como profissional em que tudo está no mesmo lugar”.

Custe o Que Custar

Aonde fica o limite entre humor e o jornalismo? Eu lembro de um professor na faculdade meter o pau no CQC falando que aquilo não era jornalismo, e sim um programa humorístico “com alguns toques de jornalismo”.

Para Tas a busca contínua do programa é o equilíbrio entre os dois elementos que são contraditórios. “No humor, você tem uma anarquia total para lidar com qualquer assunto. Ele é impreciso, despreocupado. No jornalismo você precisa ter precisão”, explica.

E não apenas isso, Tas não recomenda o exercício. “Misturar humor e jornalismo é algo que -paradoxalmente – eu não recomendo para ninguém. Quem achar que deve fazer essa mistura deve se preparar muito”. Mas o humor não deixa de ser um elemento interessante, continua, “o humor gera um relaxamento, o espectador ou leitor abaixa a guarda. O humor ajuda na eficiência da comunicação, chega mais próximo do coração do que uma reportagem mais técnica. E quando a guarda estiver baixa, você vem com a informação e dá um direto no queixo dele”.

O CQC tem uma equipe de 40 pessoas aonde metade são jornalistas, o cuidado com a apuração é a maior do “humorístico”.

Com essa química tão instável, ele faz uma confissão, “o CQC é uma bomba relógio”.

Caso Rafinha Bastos

A pergunta estava na ponta da língua de todo mundo. Ainda assim, ela foi aparecer lá pela quinta pergunta. “Tas, sobre essa questão do equilíbrio entre humor e jornalismo, o que você acha do limite do humor no caso do Rafinha Bastos?”

Como todo macaco velho, o careca ilustre não franziu a testa – como faz com facilidade em várias situações – e não se mostrou nem um pouco surpreso com a interrogação. “Pra mim a discussão é bem diferente sobre limite de humor. Um programa de televisão é resultado de uma decisão coletiva. O roteiro do CQC é feito de uma maneira absolutamente coletiva. Temos dois roteiristas e durante a semana todo mundo via jogando insumos, igual ao fechamento de uma revista. Depois que o roteiro está pronto, na segunda-feira, temos uma reunião de fechamento onde todo mundo dá palpite e se alguém quiser falar alguma coisa fora do roteiro, a gente combina antes”.

“Tudo é uma decisão coletiva. O Rafinha é um grande comediante. Um problema que surgiu é que ele começou a ser falado por conta de bobagens e polêmicas vazias e todas elas nasceram de decisões pessoais dele. Isso aconteceu uma, duas, três vezes. A gota d’água foi o caso da WC. Outra coisa importante é que a decisão de sair do programa foi dele”.

Diante disso, Tas afirma que preferiu ficar quieto. Todo o carrossel montado pela imprensa em geral foi baseado, segundo ele, em informações vazias e especulação. “O curioso é que jornalistas que publicaram isso não tem nem o básico, quem era o cliente da agência do Ronaldo que anuncia no CQC e que supostamente fez pressão pra tirar o Rafinha?”


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