MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Diário de um Cajiano – finalmentes – Ricardo Setti, colunista da Veja.com 1#

Ricardo A. Setti é um daqueles caras quietos, comedidos. Com a cabeça branca e os gestos lentos, ele fala devagar, calmo. Hoje, edita um blog na Veja.com. Mas ele já passou por muitos lugares, foi diretor editorial das revistas femininas da editora abril, diretor de Playboy, editor chefe de O Estado de São Paulo, diretor regional do Jornal do Brasil em São Paulo, redator da InstoÉ e editor assistente de Veja só pra citar alguns exemplos.

Hoje se divide entre Barcelona e São Paulo, em 1986, ganhou o Prêmio Esso de Reportagem por uma matéria sobre os bastidores da montagem do Plano Cruzado, publicada em Playboy. Mas de novo, o senhor pacato e discretamente vestido, com uma aliança de ouro branco no dedo anelar da mão esquerda.

Além de jornalista, é formado em Direito pela Universidade de Brasília e autor do livro Conversas com Vargas Llosa (Brasiliense, 1986), publicado também em Portugal (Dom Quixote) e editado na França (Pierre Belfont), em língua espanhola (diferentes editoras) e nos Estados Unidos (The Paris Review).

E agora, como fica a discussão sobre o diploma do jornalismo? (Aqui peço licença para trazer uma opinião minha, apesar desse não ser um post sobre a obrigatoriedade do diploma. Eu acredito – e minha experiência na faculdade me deu essa percepção – que jornalismo você só aprende fazendo. Não é uma sala de aula que te dá todas as ferramentas e fórmulas para trabalhar no mercado de comunicação. Talvez a academia esteja caindo cada vez mais para o lado de comunicação empresarial, mas enfim. O diploma é importante para regulamentar a profissão – e só isso)

Fotos por Tomás Arthuzzi

Mas voltando ao Setti, da sua cadeira branca ele abriu um pouquinho as portas de sua trajetória – quem sabe para nos inspirarmos ou sem querer animar os nossos semblantes cansados durante a penúltima semana do curso. “Eu tive muita felicidade na profissão, tive experiencias variadas. Trabalhei em agência de noticias, emissoras de rádio, jornal diário, na sucursal e na sede, trabalhei em revista quinzenal, mensal, peguei cargos de direção… depois que deixei na Abril, fiz televisão no Terra e finalmente, hoje eu tenho um blog, com vídeo, com áudio, animação…  fazendo coisas que há alguns anos as pessoas não imaginavam que ia existir. Pude aprender muito com isso, apanhei muito, dei muita cabeçada”.

Conforme o curso foi acabando, a urgência de conseguir um emprego e o medo de estagnar começou a morder os meus calcanhares. Nesse ponto, eu fiz uma pergunta para Setti. “Quais foram os momentos em que você se sentiu inseguro durante a profissão?” E recebi uma explicação que foi muito além das minhas expectativas.

“Eu era e sou um cara muito tímido. Quando era repórter,  fazer uma pergunta numa coletiva era difícil. Eu ficava ali, querendo morrer. Não gostava de incomodar os outros pra ter informação. Tinha um jornalista na Veja que não trabalhava fora, ele era redator, o Renato Pompeu. Ele dizia  ‘que direito eu tenho de perturbar o cara?’ Essa também era a minha dificuldade. Porém, eu sou um cara que sinto que cresço nos momentos que estou apertado. No meu primeiro cargo de chefia, eu não queria ser chefe, fugia das coisas, no Estadão, por exemplo, foi horrível demitir 40 pessoas em determinado episódio, mas precisava, não tinha como fugir. Nesses momentos eu me senti inseguro, preocupado”.

Indo pra discussão sobre chefia nas redações, Setti também é didático. “Existem dois tipos básicos de comando na redação. Um é o stress, a chicotada,o bafo na nuca, o ficar em cima. Essa conduta produz resultados, existe inclusive na própria editora Abril, mas as pessoas ficam muito infelizes. E outro modo de conduzir uma equipe  é dando retorno, estimulando, fazendo crítica construtiva, tratando com educação e simpatia. Isso funciona muito melhor, o ambiente fica melhor etc. Essa é uma liderança que não se impõe pelo cargo que você recebe da empresa, mas pelo jeito que você conduz a coisa. E eu, como chefe, preciso mostrar que dá para fazer melhor”.

Enquanto fala, ele se lembra de episódios e situações, e conta sobre trabalhar com José Roberto Guzzo, ex diretor da revista Veja (Leia mais sobre em Diário de um Cajiano – O Médico e o Guzzo).”Ele mostrava com calma como poderia se fazer algo melhor. Eu vi matérias mortas renascerem da caneta bic do Guzzo. Enquanto algum editor estava ralhando com um repórter, ele chegava, fazia algumas perguntas, lia a matéria na lauda, fazia mais algumas perguntas e mudava algumas coisas aqui e ali e as matérias realmente renasciam”, diz Setti com um brilho no olhar destoante da sua constante calma.



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