MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Diário Amazônico 3# – Seringueiros

O ano é 1864, um barco no Rio Negro sobe lentamente a correnteza. Nele, vários homens que saíram de Pernambuco e Ceará fugindo da seca. Um deles fuma um cigarro de palha enquanto se equilibra. Quanta água. Diferente da sua terra natal, aonde meses se passavam enquanto a água não chegava. Há dias estava subindo o rio e todo dia ela caía. Coisa linda!
Convite pra trabalho, ele deixou sua família em busca de dinheiro, dinheiro e água, quanta água preta, mas boa de beber, se escorre, se perde no meio de um emaranhado verde escuro, denso.
Chega na casa do Senhor. Todos os homens desembarcam  e ficam em fila, 07 vão ficar nessa fazenda. “Aqui não é mais província do Grão Pará, mas Amazonas, que nem o rio. De lá a gente fez a curva e pegou o Rio Negro.
A casa do Senhor é de madeira, o capitão inspeciona os homens. Ele olha para dentro da casa lá de fora. Louçasm piano, cervejas, vinhos, móveis, tudo importado. Os mesmos barcos que levam a riqueza dessa terra para a Europa trazem as coisas de lá para cá, diretamente para a casa do Senhor.
“Vocês ganharam um presente de Deus. Aqui na capela vocês podem prestar as suas honras ao pai criador”, dizia a voz do capataz, um cabloco baixo e troncudo, com um facão a tiracolo e uma carabina no ombro esquerdo.
“A venda pra ocês se aviá e compra comida”, aviar é comprar – do patrào, seus instrumentos de trabalho para extrair o leite de seringueira. Continua, “aqui seus companheiros vão mostrar como pegar a seringa no mato e como trazer de volta pra cá”.
O som de um piano começou de dentro da casa grande. “Não se esqueçam que vocês precisam trazer 50 quilos de borracha por semana, nem um grama a menos. Esse é o preço da despesa de vocês, claro que se passarem desse objetivo, o restante é de vocês” a voz do capataz se misturava ao som do piano.
Ledo engano dos novos seringueiros. Os últimos dez que morreram na fazenda trabalharam e trabalharam e compraram sempre os produtos do patrão, desde a viagem do nordeste para cá. Tudo era comprado do Senhor. Quando pediram a conta, o Senhor os pagou. Mas esse mesmo capataz os esperara em outra embarcação, de tocaia, com mais dez jagunços e outros capatazes de fazendas vizinhas. Roubaram os homens e os mataram. Todos foram jogados no fundo do rio, amarrados em pedras.
E agora, mais esses dez chegavam para o mesmo trabalho perpétuo. Cada um tinha a sua trilha, entre 150 e 200 árvores de seringas – todas no meio do mato – pra sangrar.
Esticando os olhos ele viu por uma janela e portas abertas a casa do Senhor. Uma mistura de rústico com elegante, uma bara de vestido foi vista perto da porta, ao pé do piano. Quem era ela?
Não importava, na madrugada ele saiu já endividado por comprar um pouco de comida, fumo e as ferramentas e foi andar na trilha, riscar as suas 150 árvores, depois pegar todos os copinhos e despejá-los no balde acender um fogo, fazer uma pela – uma espécie de bola massiça de borracha e levar pesar no barracão, sempre sob os olhos ferrenhos do capataz. Sempre que voltava pra lá, procurava ouvir mais o som do piano…
Mas não importava quem era, suas árvores estavam ruins de leite e tava difícil manter o custo da comida, quiçá arrumar algum pra voltar pra casa.
Onça, cobra, escorpião, índio… tantas outras coisas contra ele, mas foi a fome que o venceu. Caiu doente e numa noite de febre, morreu.
Foi enterrado pelo companheiro. Quando um seringueiro morre, aquele que enterrá-lo ganha de herança suas poucas coisas e suas ferramentas de trabalho.
Muitos seringueiros viveram e morreram assim, até muitos filhos de barões que iam estudar na Europa e não se apegaram pela terra, se perderam no mundo, até um navio espião de ingleses subir o Amazonas e levar pra Malásia dois barris de sementes de seringueira, até quando – até hoje – o brasileiro teima a sua burrice sobre como extrair as riquezas dessa terra, riquíssima…
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