MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Dois finais para Edgar Allan Poe

Português, esta bela língua em que escrevo e em que lês, leitor, pode ser às vezes complicada. Ok, verdade seja dita: é quase sempre complicada – embora eu veja nela infinitas possibilidades e belezas a mais… A questão é que, em português, os nativos não percebem diferença nenhuma entre as palavras inglesas raven e crow, duas maneiras de chamar um corvo. Mas elas não apenas são palavras diferentes, como são também óleo e água nos cinemas.

O primeiro corvo, The Crow, é uma adaptação feita em 1994 de uma história em quadrinhos homônima de James O’Barr. Um dos meus filmes favoritos na infância. Podemos falar mais sobre ele depois (sempre vejo pautas dentro das minhas pautas, um loop eterno).

Já o segundo corvo, The Raven, é um filme que estreou neste ano sobre os últimos cinco dias que antecederam a misteriosa morte do escritor estadunidense Edgar Allan Poe.

Um poster bastante bonito que valoriza o sangue, a pena e, especialmente, a tinta – coisas que você só vai entender assistindo 🙂

A única ligação direta de The Crow com The Raven é em uma das cenas de The Crow, quando o protagonista Eric Draven declama parte de um bonito poema chamado, não por acaso, The Raven, de autoria de Poe. Resumidamente: um filme  está bem longe de ser reboot do outro. Dito isso, Caio e eu fomos assistir The Raven no fim de semana.

Basicamente, o filme é como a obra de Poe: consegue agradar tanto os fãs de literatura como os de violência. (Ok, alguém é fã de violência? Eu gosto de God of War e Game of Thrones, mas acho que é preciso um grau de demência para ser fã da violência em si). O diretor é James McTeigue, o mesmo do incrível V de Vingança. E, como o cara já havia feito um filme incrível desses, tinha gente esperando que ele superasse V com The Raven – o que não aconteceu. A questão é que as propostas do filme são muito diferentes; The Raven não ostenta bandeiras ou ideologias, não quer ser político como V de Vingança. Então, crianças, esse argumento, para mim, é inválido.

O Poe beberrão, afiado, irônico e com um quê de vulnerabilidade infantil de John Cusack funciona. Eu acho que Robert Downey Jr. teria ficado bem no papel, mas ele tem ficado bem em tudo e isso pode se tornar chato, então não. Ou talvez alguém com um arzinho de alma sofrida, como Keanu Reeves – mas isso é uma especulação maldosa, já que Cusack conseguiu se mostrar bom o bastante. A fotografia, os cenários e figurinos são de se reparar, também.

John Cusack como Poe e com o famigerado corvinho negro

Como vocês talvez tenham visto em resenhas por aí, o filme conta como um serial killer começa a matar pessoas na macabra Baltimore – acho que morar numa cidade com tanta neblina pode mesmo deixar alguém louco – e o assassino reconstroi mortes imaginadas e descritas por Poe em sua obra. Tarantino pode muito bem ter tirado de Poe a ideia de enterrar mocinhas vivas, afinal.

Os assassinatos e a busca pelo demente criminoso são a maneira que o filme encontrou para preencher os cinco dias que antecederam a misteriosa morte de Edgar que, na vida real, foi encontrado a delirar num banco de praça em Baltimore. Suas últimas palavras foram “It’s all over now. Write: Eddy is no more”. (Traduzindo: Está tudo acabado agora. Escreva: Eddy não existe mais.)

Existem muitas teorias e nenhuma verdade absoluta para explicar o que aconteceu com ele. A versão do filme (que eu não vou contar) é bastante bonita, apesar de tudo que dá errado. Quer saber a minha? Aí vai. Afinal, all that we see or seem / is but a dream within a dream.

Edgar Allan Poe era um espírito sensível a influências que foi dominado, ainda jovem, por uma entidade sombria. Algo como… um corvo. Este se aproveitou do raro talento de Poe com as letras e, durante toda sua vida, inspirou em sua mente sua mensagem sinistra; histórias macabras, sofrimento e dor. A influência negra se espalhou pela vida de Poe; matou aqueles que lhes eram próximos e queridos e afogou a tristeza em álcool. Não vendo mais uso em Poe, o Corvo resolveu dar-lhe um fim: deixou-o louco, fora de si e do controle de seu próprio corpo. Assim, numa ousadia final, as últimas palavras de Poe não são dele em verdade, mas do negro Corvo que sua vida dominou. E ele disse:

– It’s all over now. Write: Eddy is no more.

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Publicado às 22 de maio de 2012 por em Cinema, Cultura in(útil), Literatura e marcado , , , , .
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