MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Três anos sem Michael Jackson

Uma das primeiras memórias que consigo resgatar da minha vida é o tapete da sala da casa dos meus pais. Meus pés descalços e desajeitados tentavam imitar o homem, com cara de criança, que persegue uma mulher linda, esguia e de cabelos cacheados por ruas pichadas, bem a cara dos anos 1980. O clipe de “The way you make me fell”.

Aos cinco anos de idade, naquelas dancinhas de escola, minha turma ficou com “Beat it”. A guitarra da música é inconfundível e até hoje me traz um gosto de infância.

A obra de Michael Jackson, sua música, seus clipes, seus figurinos e seus passos de dança contagiaram multidões e criaram novos espaços na indústria do entretenimento.

“Thriller” , seu segundo álbum solo é o mais vendido da história em todo o mundo com 110 milhões de cópias. Sete das nove canções do álbum foram lançadas como singles, e todas chegaram às dez primeiras posições da Billboard Hot 100, parada de sucessos da revista americana Billboard.
Duas músicas, “Billie Jean” e “Beat It” chegaram ao primeiro lugar. Isso tudo em tempos sem internet e mp3.

Thriller também foi um marco na luta contra a discriminação racial na indústria fonográfica. MJ foi o primeiro artista negro a tocar na MTV estadunidense, com o videoclipe de “Billie Jean”, dirigido por Steve Baron. “Beat It”, que conta com a participação do guitarrista Eddie Van Halen, fez rádios de rock, na época focadas principalmente pelo público branco, a tocarem uma canção de um negro. Além disso, as rádios de black music passaram a tocar rock.

“Thriller” era exibido a cada 40 minutos na MTV. O sucesso foi estrondoso, nada incomum para um artista que viveu de superlativos tanto nos recordes quanto nas excentricidades.

Em 2007 1.500 presos da província de Cebu, nas Filipinas, chamaram a atenção do mundo quando resolveram coreografar Thriller.

O episódio do bebê na janela, sua infância conturbada, as condições de sua morte, as acusações de pedofilia, câmera hiperbárica, seus dois casamentos, a mudança na cor da pele, as cirurgias plásticas, os olhos claros de sua filha. Tudo em torno de Michael Jackson é estranho demais. Sua vida não-profissional foi um espetáculo midiático de quinta categoria, especulações e manchetes de tablóides.

Há três anos, a notícia de sua morte veio como uma pedra. Algumas semanas antes, o cantor anunciou apresentações em Londres. Aos 50 anos, o rei do pop sairia de sua reclusão. Mas não foi bem assim. E sua morte foi espetacular. A primeira foto, dele entubado, depois as inúmeras notícias mostrando a casa aonde estava morando. A imprensa revirava e revirava o seu passado.

E eu me pergunto: como um cara que escreveu letras de músicas assim…

I said if you’re thinking of being my brother/ Eu disse se você está pensando em ser meu irmão
It don’t matter if you’re black or white/ Não importa se você é preto ou branco

It’s black, it’s white/ É preto, é branco
It’s tough for you to get by/ É duro para todos sobreviver
It’s black , it’s white/ É preto, é branco

I’m starting with the man in the mirror/ Estou começando com o homem no espelho
I’m asking him to change his ways/ Estou pedindo a ele que mude seus modos
And no message could have been any clearer:/ E nenhuma mensagem poderia ter sido mais clara:
If you wanna make the world a better place/ Se você quer fazer do mundo um lugar melhor
Take a look at yourself and then make a change/ Olhe para si mesmo e faça uma mudança

… realmente poderia tomar as atitudes que a imprensa sempre o acusou.

Isso tudo sem contar o comportamento estranho da sua família, que também tornou seu funeral em um show. Artistas diversos prestaram homenagens cantando e dançando.

O julgamento do médico, outro show de horrores e todo mundo em cima. Cobertura completa. Eu não fiz questão de acompanhar.

Decidi deixar a minha sede de notícias e me enfiar na vida dos meus artistas preferidos no dia de seu funeral (7 de julho de 2009). O caixão dourado com o corpo de Michael esteve presente durante todo o evento, que se estendeu por mais de duas horas e meia e foi acompanhado pela televisão em todo o planeta. Mais de 17 mil pessoas estiveram presentes no tributo.

Estava em casa nesse dia, ia a uma palestra de Gay Talese no MASP. Quase me atraso, mas fiz questão de assistir até o final. Uma parte da minha infância morria ali. Entre a confusão de acreditar nas acusações de todas as estranhezas da vida de Michael Jackson, preferi ficar com as palavras de sua filha, “desde que eu nasci, o papai foi o melhor pai que vocês podem imaginar. Eu só queria dizer que eu te amo muito”.

Mas eu sou um saudosista e a música dele é muito boa. Assim, Michael Jackson é um artista como ainda não existiu igual e suas músicas não saem do meu celular ou do meu carro e ainda me fazem sentir vontade de dançar no tapete da sala dos meus pais.

Também publiquei esse texto no Club Alfa

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: