MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

No palco – seis pessoas

Eis que eu encontro um texto antigo entre meus documentos. Não me lembro quando o escrevi, acho que no colegial, talvez antes. Mas eis que de caderno em caderno, computador e computador, deixei ele salvo no limbo do meu e-mail. Sempre é bom juntar coisa inútil em algum canto esquecido. Quando você vai organizar, revira tudo, gasta um tempo e acha coisas como essa… que não servem pra nada. 

Sobe a luz e o palco outrora vazio, no teatro abandonado e ricamente decorado, se mostra com seis figuras. Todas sentadas no chão, de costas um para o outro. Elas estão acordando.

Uma mulher, com um vestido de noiva rasgado e com marcas de sujeira encardida. Suas luvas de lã pendem nas mãos finas e frias, esguias. Porém com as unhas brancas de uma beleza encantadora e bem cuidada. Percebia-se conforme ela tira delicadamente cada luva e a deixa cair no chão. Seu rosto juvenil, pálido e o cabelo – embora pouco embaraçado e despenteado – soltava um cheiro no ar de bromélias e uvas.

Um rapaz com um bigode fino, um terno azul sobre a camisa e calças brancos e um chapéu panamá claro coroa o penteado delicadamente para o lado. Tudo impecavelmente alinhado no jovem, ó jovem.

Um outro homem, com fios brancos salpicados na barba densa, de suspensórios e mangas de camisa soltava uma tosse profunda e ruidosa logo abria os olhos. Procura n’algum bolso um isqueiro enfeitado e dourado e acende o charuto curto e fino, baianinho.

Uma ruiva glamorosa, com a liga das cintas aparentes sob a pequenina saia que envolvia as grossas pernas. Como uma dançarina de cabaré animada que era, agora despertava de um longo sono e os cabelos como labaredas de fogo desciam de um coqui até o meio das costas em ondas. Essas ondas, até os homens mais desligados das sutilezas femininas parariam pra olhar.

E quem olha é o terceiro homem, jovem, louro, com os olhos azuis como o céu de três da tarde. Ele olha, e devora, e se aconchega os olhos naqueles decotes e curvas, naquela cinta-liga pavorosamente sensual.

A noiva olha, inveja, deseja ser como a ruiva, enquanto o homem de bigodes finos também a deseja.

A última pessoa é uma senhora, gorda, com a cara redonda e grandes anéis em torno dos dedos rechonchudos e bem cuidados. Ela carrega um cachorrinho e o aperta entre os voluptuosos seios, quase à mostra no vestido bem cortado, difamado, manchado e arreganhado.

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Publicado às 10 de setembro de 2012 por em Contos, Textos e ensaios... e marcado , , , , .
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