MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Professor Roberto fala sobre escrever

A primeira vez que vi Roberto Amado foi em um barco, na Amazônia. Era um evento da Abril e eu estava fazendo um frila. A viagem inteira era “open bar” e na primeira noite do passeio, quando minhas obrigações terminaram eu fui munido de um maço de Marlboro pegar um copo de uísque pra ficar curtindo sozinho. Porém, fumantes são uma raça em extinção. Não vou levantar nenhuma bandeira aqui. Eu quero parar de fumar mais pra frente e acho interessante todo esse comportamento de “exclusão” dos fumantes como safados espalhadores de fumaça e doenças respiratórias. Ainda mais em um evento sobre sustentabilidade. De 400 pessoas na embarcação, devíamos somar uns 15 fumantes – claro, sem contar os que fumam quando já estão muito bêbados. Eis que o senhor de cabelos longos grisalhos e óculos da foto acima aparece. Não sei como começamos a conversar. Isso é coisa de fumante, socializar “do nada”. Mas engatamos uma boa conversa que terminou comigo trabalhando com ele no Club Alfa.

Roberto é jornalista e escritor, colabora na Fox Sports, revista Alfa e os sites do Club Alfa. Além disso, ele já trabalhou nas editoras Símbolo, Zero Editorial, Horizonte e nas revistas Veja e Quatro Rodas. Além disso, escreveu “As aventuras de Iakti, o Indiozinho“, alguns contos eróticos nos livros “O Prazer é todo nosso” e “A Mulher Selvagem“, entre outros e fez algumas traduções.

Quem já pensou em escrever um livro e tomou a iniciativa já deve ter se deparado com a tela branca, uma imaginação rápida demais e o problema em dar continuidade ao trabalho de escrever. Foi pelo prazer de escrever que escolhi ser jornalista. Enquanto fico rodando no mesmo lugar com meus ensaios e textos buscando escrever um primeiro livro, vi que na experiência dele – eu e vocês, queridos leitores do Mirante1– poderíamos nos inspirar.

Roberto também é sobrinho de Jorge Amado, autor de Gabriela, Tieta do Agreste, Capitães de Areia etc. Ele também já viajou meio mundo, Rússia, França, Alemanha, Israel, Índia… sempre que estamos em uma boa conversa de bar, ele tem histórias fantásticas. Nem por isso, ele deixa de prestar atenção às suas. Aliás, Roberto é uma das poucas pessoas de cabelos brancos que vejo realmente se interessar genuínamente por conversas e bate papos de jovens.

Então eu resolvi fazer algumas perguntas para o “professor”, como o chamamos carinhosamente na redação.

M1: O que é escrever bem pra você?

Roberto: Escrever para mim é uma profissão. Comecei a escrever por entender que essa é a linguagem com que eu tenho mais facilidade de me expressar. Ainda acho isso. Mas escrever transformou-se num recurso que me diferencia profissionalmente, uma especialização. Sem deixar de ser a ferramenta com que eu expresso minhas ideias ou, de forma mais romântica, minha alma.

M1Qual livro mais te marcou?

Roberto: Os livros marcaram fases da minha vida. Foram muitos, de muitos autores. Na infância, Monteiro Lobato. E Jorge Amado, porque li muito cedo a obra dele. Hemingway e os escritores americanos do começo do século 20, também — Faulkner, Scott Fitzgerald, Steinbeck, Sinclair, John dos Passos. Depois vieram os russos e os clássicos em geral. Mas há um livro que me marcou profundamente: Shikasta, de Doris Lessing, que faz parte da pentalogia Canopus em Argos.

M1: Qual a entrevista mais inusitada que você fez?

Roberto: Foi com o Padrinho, em 1977. Eu era muito jovem e fui conhecer a Amazônia. Lá, ouvi falar de uma colônia de brasileiros e estrangeiros que praticavam a auto-suficiência e ritos religiosos motivados pelo Daime. Me mandei pra lá por puro instinto. Não estava a trabalho. Tive que trilhar na mata para chegar à colônia, mas fui recebido pelo próprio Padrinho e passei algumas horas conversando com ele. Foi inusitado, sem dúvida. Essa experiência eu relatei em um dos meus romances, Os Últimos Super-Heróis.

M1: Dessa geração nova de jornalistas, o que você acha que falta em relação a sua geração?

Roberto: Falta cultura geral, leitura e capacidade de escrever com qualidade. Mas essa nova geração tem outras qualidades que, talvez, sejam mais importantes nesse momento. Essa capacidade múltipla de conhecer tecnologias e se adaptar à linguagem que elas exigem é uma grande qualidade.

M1: Quais atributos você acha que a geração mais nova tem que a sua deveria ter?

Roberto: Justamente esse domínio múltiplo de linguagens e meios. A minha geração não poderia ter isso mesmo, porque não havia multiplicidade de mídias.

M1: Fazendo um balanço da sua vida, se você tivesse 20 anos novamente, ainda seria jornalista? Por que?

Roberto: Eu tentaria, sim, ser escritor, que foi o que tentei quando tinha 20 anos. O jornalismo foi consequência e muito provavelmente seria agora também.

M1: Jornalistas mudam o mundo?

Roberto: Não. Embora todos pensem dessa maneira, não só os jornalistas. Acho que contribuem, sim, mas não mudam. A sociedade muda o mundo.

M1:O que te inspirou ser jornalista?

Roberto: Hemingway. Ele me inspirou muito a ser escritor e a conciliar o trabalho de jornalista com o de literato. Foi muito mais escritor do que jornalista e talvez por isso tenha me inspirado tanto.

M1:O que te inspira continuar sendo jornalista?

Roberto: Acho que a contribuição maior que posso dar como jornalista é exercer a minha própria voz. Como crítico, como observador, como pesquisador de assuntos interessantes e instigantes. Também acho que posso contribuir um pouco para as novas gerações. Principalmente, mostrar que é importante escrever sem medo.

M1: Você já teve momentos de insegurança na carreira? Você já travou?

Roberto: Como jornalista, tive muitos altos e baixos na minha carreira e acredito que essa seja uma profissão muito instável e nem sempre interessante. O jornalista é um trabalhador, um operador de funções. Quase nunca é um pensador. Ele está a serviço de um objetivo, de uma revista, de uma empresa. E, como tal, nada mais é do que uma profissão igual às outras. Por isso, nunca travei. Fiz o trabalho necessário, como qualquer profissional faria. Como escritor, já travei várias vezes.

M1: Além de escrever para internet e impresso no dia-a-dia, você também escreve livros e trabalha com oficinas para escritores. Para alguém que queira ser romancista, o que deve fazer pra começar?

Roberto: Já me fizeram essa pergunta várias vezes. Nas oficinas que conduzo, repito sempre: se você quer escrever porque procura fama, dinheiro e mulheres, procure outra coisa. Isso quer dizer o seguinte: para ser escritor é preciso querer escrever. E também não é preciso muito mais do que isso, não. Se você vai ser bom ou ruim, famoso ou não, prestigiado ou ignorado, é consequência. O escritor escreve porque quer se expressar dessa maneira. Porque se identifica com a linguagem dos livros. Porque não há motivo para NÃO escrever. É só por isso. E a única maneira de começar, é escrever. Comece pelo que você considere mais simples: um conto, um artigo, uma reflexão, uma história. Procure a sua voz. Escreva, escreva, escreva. Se você cansar, é sinal de que essa não é sua praia. Se você não cansar, vai acabar aprendendo alguma coisa.

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2 comentários em “Professor Roberto fala sobre escrever

  1. Nat
    28 de setembro de 2012

    Incrível. Uma aula em um post.

  2. Roberto Ricardo Amado
    12 de abril de 2013

    Prezado Roberto Amado
    Eu, até então, pensava não ter homonimo,mas com imenso prazer descobri um.
    Meu nome é nome é Roberto Ricardo Amado e indago,não seremos parentes.

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