MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Caminhada Noturna – parte 1

Os olhos dele coçavam. O sono atrasado bagunçou com toda a sua cabeça e ele não conseguia focar um pensamento sequer. apesar da chuva, não estava frio. Dentro do minúsculo apartamento, o bafo era de um calor que teimava em abraçá-lo por inteiro, como uma amante dependente, teimosa e problemática. Apesar da coceira nos olhos, não conseguia dormir. Seu peito acelerava como um motor v-8. Estaria tendo um ataque de ansiedade? Ou será que era apenas insônia, noite após noite dormindo mal, acordando de manhã cedo e indo ao trabalho. Assim, os dias se emendam uns nos outros, se tornando um continuo da mesma coisa, semana após semana e mês depois de mês.

Nada parece sair do lugar. Por mais que você mude os seus móveis, a sua cama, a sua televisão de lugar. Feng Shui é o caramba. Se você não respira direito, não dorme, por mais que você parafuse sua cama no teto e se amarre nela.

De repente sentou na cama. Nada parecia fazer sentido. “É só uma fase”, ele pensa, “logo as coisas vão mudar”. Mas ele sabe que é só uma desculpa, um raciocínio anestésico para conseguir um objetivo pontual – dormir.

Não consegue, senta na cama, acende um cigarro. O gosto não combina com o da pasta de dentes na sua boca. Aliás, gosto de pasta de dentes não combina com diabo nenhum. Tudo fica ruim. “Por que ainda não inventaram um chiclete para limpar os dentes? Ou um cigarro que não te dê câncer?”

Tudo no mundo parecia fora de lugar.

Levantou, vestiu-se e saiu pela porta.

O ar da noite era muito diferente do ar viciado do seu minúsculo apartamento, a rua parecia muito mais do que a sua minúscula vida. Apesar dos prédios escuros e opressores, cheios de pessoas e famílias viciadas na mesma caduquice. A madrugada era muito mais convidativa com as suas gotas grossas de chuva e o seu vento frio. A rua deserta era muito mais acolhedora com a sua escuridão gigante do que durante o dia apinhada de gente se esbarrando do que com um minúsculo sol milhões de quilômetros de distância.

Existem pessoas que morrem de medo da solidão, do escuro, morrem de medo de morrer. Aqueles que detestam envelhecer e odeiam cada risco de ruga que o tempo soma à maquiagem do corpo. Pobres debatedores patéticos. Existem mulheres que não sabem lidar com uma vida sem um homem do lado. Existem homens que sem uma mulher do lado ficam eternamente órfãos, sem mães e sem rumo. E os velhos diretores, vice presidentes e presidentes das grandes companhias? Decrépitos decepadores da vida das pessoa. Vendedores de promessas e exímios vendedores deles mesmos. Hipócritas, a maioria que conheceu.

Solidão é liberdade, liberdade é felicidade e a felicidade só é plena quando compartilhada. Ele deu uma olhada para o céu, como se estivesse questionando Deus ou qualquer outra entidade superior. “Obrigado pela ironia, espero que você se divirta”. E ascendeu mais um cigarro. Precisava segurar o pequeno assassino pra dentro da mão para não cair nenhuma gota gorda de chuva e molhar todo o fumo…

Continua…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 14 de novembro de 2012 por em Contos e marcado , , , , , , , .
%d blogueiros gostam disto: