MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Caminhada noturna – parte 2

Mas nem tudo estava perdido. Na verdade, nada estava perdido. Toda a vastidão escura se abria pra ele. Por mais que os prédios e as sombras o oprimissem, por mais que o vento cortasse sua pele e o fizesse estremecer. Ele olhou pra cima, se sentiu acolhido pelo ar gelado, pelas grossas gotas da chuva. Úmido e confortável, como em um útero ele sentiu um calor dentro do peito. Uma arrepio que irradiou-se por todo o corpo e um sorriso se abriu como um louco em algum canto escuro de um manicômio. Incontrolável, impensável, ele olhou para o semáforo na esquina e esperou. Assim que a luz ficou verde, ele pisou no asfalto como um novo homem, uma nova pessoa, renovada, renascida, sublime.

Os momentos mais épicos, mais significativos da sua vida acontecem nos dias mais comuns, ou nos quais você se sente pior e se questiona qual é o sentido de sentar oito, nove, dez horas amarrado a uma tela de computador, trabalhando pra pessoas que você não conhece e alimentando esperanças que nem sempre serão respondidas. Você se venda e algumas vezes espia pelo pano, não gosta do que vê e se venda de novo. “Quantas peças de roupa você já deu para um mendigo?” ele se perguntou. Não, nada de campanhas de agasalho, mas efetivamente pegou um cachecol em um dia frio e no lugar de  colocar na mochila – porque você não gostou da cor ou das franjas que ele tem na ponta – e entregou a uma pessoa com frio, com menos dinheiro e com talvez mais liberdade que você?

Tudo isso passou pela sua cabeça enquanto ele descia um lance de escadas e ajeitava o seu casaco. Todos os questionamentos que você faz, não mudam absolutamente nada se não surge aquele fogo no estômago e você se mexe pra fazer alguma coisa. Não adianta nada questionar a sociedade, seu trabalho, o capitalismo ou a aparente injustiça dos velhos, gordos e com frustrações sexuais mandarem no seu destino e na sua vida – demitindo, diminuindo os custos e buscando sempre maiores lucros.

A noite continuava a lhe agradar. A escuridão também. Ele sempre usava botas fechadas pra andar em dias de chuva. A importância de pés e meias secas em dias chuvosos é gigantesca – e muitas vezes negligenciadas. Mas por conta dos pés estarem secos – mesmo com os cabelos encharcados – ele se sentia blindado, confortável, conformado, dócil… feliz.

E um grito rompeu a noite e ecoou em um túnel próximo. Ele pôs as mãos pra trás, punhos cerrados, respirou fundo e gritou até os seus pulmões arderem, sua garganta coçar, seus olhos lacrimejarem e a terra tremer. O túnel gritou de volta com ele, era o mundo respondendo. Todos os outros gritos de todas as outras pessoas inconformadas, impotentes e quietas. Todas elas responderam a ele. Em uma mesma noite ele morreu, nasceu e morreu de novo. Todos os pensamentos, todo o conhecimento que ele acumulara do mundo, tudo o que ele viu ao espiar pela venda, tudo foi lavado pela chuva e foi embora pelos dentes.

Quieto, resoluto, civilizado, com os olhos menos brilhosos, ele deu meia volta e voltou a caminhar solenemente para a sua casa, mais uma vez, mergulhar na sua vida, na sua rotina e nas suas esperanças.

Mais calmo, ele se entrega à escuridão. Ela o abraça, o acolhe e o perdoa pelos seus pequenos crimes, fala palavras doces em seus ouvidos, lambe sua pele e o liberta de seus pecados.

A escuridão não esconde as coisas do mundo, mas te escancara o que existe dentro de você. Aceite-a e não tenha medo de você mesmo.

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Publicado às 16 de novembro de 2012 por em Contos e marcado , , , , , , , .
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