MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Algo está errado no Olimpo

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Logo abaixo dos pinheiros, ao lado do Mar Egeu e do grande rio Styx, com suas águas negras e fétidas, ergue-se o Olimpo. Colossal com seus vidros e concretos, suas portas giratórias e seus selos. A estrutura desponta o horizonte da baixada. Vibrante, efervescente.

Ah, as minhas memórias de menino, enquanto passávamos por lá e eu imaginava o que acontecia nas suas encostas e nas suas câmaras internas. Com os deuses comandando exércitos de herois que buscavam a verdade e a justiça. Trazer um pouco de paz à humanidade por meio do conhecimento e do acesso à informação. Como eu queria fazer parte desse panteão. Zeus, Hades, Poseidon, Hera, Apolo, o Pato fucking Donald.

Suas lendas  e histórias os colocam em um altar dourado e magnífico e alguns de nós, em suas escolas os idolatram e preparam sacrifícios em seus nomes. Escrevemos cartas e textos, entoamos orações, beijamos mãos, nos esprememos na via sacra amarelada enquanto os deuses vem e vão como pássaros direto do topo do Olimpo e não nos sobra nada a não ser raspar as baixas encostas das montanhas, apertados entre o Egeu e seu mármore frio, cálido e encantador. Suas estátuas e relíquias sorridentes nos saúdam enquanto buscamos algum sentido em qualquer coisa que o seja.

Entramos nos seus torneios e participamos dos seus festivais para gozo dos grandes senhores, deuses de nossas causas. Entretenimento das massas para os herois e não o contrário. Em suas armaduras negras, marrons, douradas e engravatadas eles nos julgam, “cabras, espinafre e casamento!”  Eis o instante em que uma divindade se quebra aos seus olhos. Bobagem, hipocrisia. Afinal, são as cabras que lustram as pedras de seus salões e seus tronos. Você é fantástico com a pena, mas isso não faz de você uma boa pessoa…

Ainda pensamos, aqui do pé da montanha que não apenas as riquezas do Olimpo, mas a sua sabedoria é plena e está sempre a busca de mais conhecimento, em busca de uma missão maior, que nos enobreça e nos alce um dia a uma sala maior, uma classe melhor, um tipo melhor de seres humanos. Mas não.

Os deuses são esnobes nas suas conquistas e orgulhosos demais para mudar a maneira como fazem as coisas. Descontentes, insatisfeitos, pegam uma dúzia de raios e maremotos e fritam, afogam quem estiver no caminho. “Mas não se esqueçam nunca de nos venerarem e nos servirem, afinal, você sabe com quem está falando?”

O Olimpo sangra enquanto seus deuses estão ocupados demais masturbando as próprias competências intelectualóides aos quatro ventos da terra.

O Olimpo sangra enquanto seus deuses estão ocupados demais masturbando as próprias competências intelectualóides aos quatro ventos da terra.

O Olimpo sangra enquanto seus deuses estão ocupados demais masturbando as próprias competências intelectualóides aos quatro ventos da terra. Do lado de fora, a montanha majestosa, próspera, bela. Dentro, um vulcão decorado com correntes douradas que sugam até as suas últimas forças. Mas você acaba pedindo por mais, tentando cavar qualquer vaga em algum degrau, nem que seja para se pendurar em uma das mãos, fixo, sem soltar quase nunca a ideia – o sonho adornado de romance – de que a vista do topo do Olimpo vale a pena… será?

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Publicado às 12 de dezembro de 2012 por em Contos e marcado , .
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