MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

House of Cards vai mudar a televisão

(Zoe) – Estou vendo o seu segurança. Ele é bonito.
(Underwood) – Ele jamais se interessaria por você.
(Zoe) – Por que não?
(Underwood) – Você é muito intimidadora.
(Zoe) – Mas ele é quem tem uma arma.
(Underwood) – E você é quem tem um deputado.

Para situar o caro leitor, esse é um dialogo entre a jornalista Zoe Barns e o deputado Francis (Frank) Underwood, interpretados pelos atores Kate Mara e Kevin Spacey na série House of Cards.

Mas os motivos pelos quais você deveria assistir a série vão muito além desse diálogo de seis falas que carregam muito mais mensagem do que está estampado em suas letras. Sim, um deputado é mais perigoso do que uma arma, by the way. kevin spacey house of cards

House of Cards é um daqueles casos de empreendedorismo que você não percebe, mas que muda totalmente uma dinâmica da sua vida. O seriado foi produzido pelo Netflix. Se você não conhece, deveria conhecer. O Netflix é um serviço que te permite assistir a programas de televisão via streaming, ou seja, pela internet. No meu caso, eu assisto pelo meu Playstation 3. Você também pode assistir pelo computador, celular ou tablet. Isso não é novidade. A novidade é que a empresa gastou mais de U$100 milhões na produção – o que é um orçamento de filmes classe A, em Hollywood. A outra novidade é que a série estreou dia 1° de fevereiro com os 13 episódios da primeira temporada já disponíveis – no mundo todo. Isso significa que não precisamos mais depender dos canais brasileiros pra entregar – tão demoradamente – os seriados que baixamos, assistimos e conversamos sobre no Twitter ou Facebook com nossos amigos estrangeiros. Não precisamos também mudar de canal na hora dos intermináveis intervalos e perder aquele trecho de cena enquanto zapeamos.

Isso é um tapa na cara da televisão convencional que passaria um episódio por semana, ao longo de 13 semanas e sempre com pausas comerciais. Em uma entrevista para a Playboy que transcrevi no final do ano passado, o ator e dramaturgo Marcos Caruso disse, “televisão é um monte de comercial com um programa no meio”.

Talvez não seja mais assim. O Netflix sabe que seus espectadores assistem às séries fazendo maratonas e vendo uma temporada inteira no mesmo dia ou final de semana. De acordo com a consultoria Nielsen, quando a segunda temporada de “The Walking Dead” estreou no site, em 2012, cerca de 200.000 pessoas assistiram todos os episódios de uma tacada só, em menos de 24 horas. Eu devorei House of Cards em três dias.

Se você não é assinante do Netflix, pode assistir ao primeiro episódio no site deles, de graça. Aí eles pegam a sua alma de vez e você vai querer pagar os R$15,00 mensais da assinatura.

Kate Mara House of Cards Zoe Barnes

Deixando o campo do que a série representa no “negócio” televisão e o nosso hábito a se prender aos quadros eletrônicos em nossas casas (não mais caixas), House of Cards é uma obra de arte.

Ela foi produzida por Kevin Spacey (Beleza Americana) e pelo diretor David Fincher (Clube da Luta), que assina a direção dos dois primeiros episódios e supervisiona todo o programa. Ela também é um remake da série homônima transmitida pela BBC nos anos 1990 e que se situava nos bastidores políticos no final do mandato de Margaret Thatcher. Dessa vez, o enredo permeia as engrenagens políticas e podres dos bastidores de Washington.

Enquanto assistia à série, ficava me perguntando como seria se mostrasse os bastidores políticos de Brasília (podre do mesmo jeito). A real é que a mecânica de forças políticas vão muito além dos releases de assessores de imprensa e notas oficiais. Tudo é baseado na troca de favores e informações cuidadosamente vazadas na imprensa. Tudo se resume a como você aparece na foto, ao lado de quem e como é dirigido. Influência, poder, falta de escrúpulos e muita, muita inteligência pra equilibrar tudo isso.

robin-wright-house-of-cardsUnderwood para o que está fazendo, te olha diretamente através da câmera e sua tela, te atinge, “bum”, e te dá uma aula. As tiradas sarcásticas de Spacey junto ao sarcasmo agudíssimo de Fincher te deixam incomodado enquanto você percebe as ferramentas de maldade e cinismo dos personagens. Underwood, em uma cena, por exemplo, te fala sobre a diferença entre dinheiro e poder. “Dinheiro é a Mega Mansão em Sarasota que começa a se degradar depois de 10 anos. Poder é aquele antigo prédio de pedra que dura séculos. Eu não consigo respeitar alguém que não percebe a diferença”.

Ou então, “poder é muito parecido com o mercado imobiliário. É tudo localidade, localidade, localidade. Mais perto você está da fonte, maior é o valor da sua propriedade”.

O problema é que esse cara orquestrou a campanha presidencial e a ele foi prometido o cargo de Secretário de Estado. Na última hora, o presidente escolhe outra pessoa e passa a perna nele. Underwood é mais valioso no Congresso – aos olhos do presidente – aonde ele pode ser uma grande ferramenta para que os projetos de lei passem pelos democratas (partido dele e do presidente) e pela oposição (os republicanos). Mas Underwood é ambicioso e ele só usa suas artimanhas a benefício próprio e passa feito um trator por quem for.

Kevin Spacey

Vou parar por aqui. Não vou citar a relação dele com a sua igualmente ambiciosa esposa, Claire Underwood, interpretada pela elegante Robin Wright (Forrest Gump). Não há mocinhos e nem vilões, apenas um monte de gente ambiciosa tentando subir na vida (por que Brasília continua vindo à mente toda vez que penso na série?)

Faz muito tempo que um seriado não me faz ficar de pé, no meio do quarto porque um desfecho ou atitude inesperada de algum personagem me surpreendeu. Por conta disso eu queria ficar aqui e contar a série toda. Mas não.

Assista House of Cards.

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Publicado às 8 de fevereiro de 2013 por em TV e marcado , , , , .
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