MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

A morte do Chorão e do rock nacional

O restaurante chileno custava a trazer os nossos pedidos. O calor estava beirando o insuportável e a balburdia das pessoas nos seus horários de almoço. Era inevitável ouvir em várias conversas a palavra “chorão”, surgindo, pulando de uma boca pra outra – bem mais rápido do que os nossos pedidos chegaram.

Na nossa mesa não era diferente. A morte do Chorão foi um choque – como todas as mortes repentinas de artistas são. Você se pega pensando em todas as vezes ou na primeira vez que teve notícia daquele ser humano. Eu me surpreendi por lembrar quando eu ouvi Charlie Brown Jr. pela primeira vez.

charlie-brown-jr

Era 1997, logo depois de uma aula na escola, fomos para a casa do Eduardo fazer um trabalho e ele botou o CD, Transpiração Contínua Prolongada. O Eduardo tinha casa em Ubatuba e estava ~por dentro ~da vibe do litoral paulista dos anos 1990, já que ele tinha uma irmã e um primo mais velhos.

Adorei a música proibida pra mim e logo quando eu começava a me interessar pela MTV, no alto dos meus nove anos de idade, vi Alessandra Scatena toda linda, de mini saia, blusinha e patins na telinha da televisão da minha sala.

Quem lembra bem dos anos 1990, sabe que o Gugu era campeão de audiência dominical, batendo semana após semana no Faustão. E claro que além das repetidíssimas apresentações dos Mamonas (antes e depois da morte deles) e da banheira do Gugu, sempre estava lá, Alessandra Scatena.

Aos 10 anos você não entende muito isso, mas aos 11 já começa a prestar atenção de um jeito diferente.

Além disso tudo, a música é muito boa, um skazinho apaixonadinho, sem esperança e feliz. É quase um emo, se não fosse pela autoconfiança e as notas que te dão uma alegria de tudo vai dar certo, “se não eu quem vai fazer você feliz?” Oras, me diga aí, quem estava na sua pré adolescência nessa época e não pensou naquela paixãozinha de primeiro beijo ouvindo essa música?

O legal é que nos anos 1990 – vide Raimundos, Mamonas e CBjr. Nenhum deles se levava a sério, tudo tinha um clima de camaradagem e zoeira. E isso era muito legal.

Sério, tem como usar essas roupas e se levar a sério?

Sério, tem como usar essas roupas e se levar a sério?

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Enquanto isso, na mesa do restaurante, alguém fala, “gente! O rock brasileiro morreu”. Durante um segundo eu paro e penso, “mas o Chorão não era o rock brasileiro”, mas completaram o pensamento, “o Charlie Brown foi a última banda boa de rock brasileiro que apareceu, anos 1990 tinha Raimundos que acabou…” Verdade. O Digão ainda tenta, ele é bom, só que Raimundos é aquele caso ~tipo Beatles~ em que a banda só funciona com todos os integrantes, se um deles sai, acabou. Se colocassem o Eric Clapton nos Beatles, não seriam os Beatles, me entede? Enfim, Raimundos sem Canisso, não é Raimundos, sem Fred, não é Raimundos, sem Digão, não é Raimundos, sem Rodolfo, não é Raimundos…

O rock nacional morreu com o final dos anos 1990. Capital Inicial hoje, é cover de Capital, Os Titãs é uma banda cover dos Titãs, RPM, Ultraje a Rigor, Tijuana sumiu, voltou com o filme Tropa de Elite, sumiu de novo, CPM 22 já foi bom – os dois primeiros discos – depois caiu e hoje também é um cover dela mesma… (Pausa na reflexão porque uma das meninas da mesa disse, “aí veio a geração bunda mole dos Los Hermanos”) Nunca alguém falou uma verdade tão verdadeira na minha frente.

Mas os anos 2000 também mataram a MTV junto com o rock. Por exemplo, em 1999, no verão da MTV, na saudosa casa da MTV, tinham os luais…

Cara, Sabrina Parlatore de biquini apresentando boas bandas, na praia… bem diferente desses babacas que a MTV coloca hoje pra ficar o programa inteiro falando bobagem e só andando de skate. Caramba, ou é MTV Casa na Praia ou é MTV Sports. Se decidam!

E como é gostoso lembrar o ano de 2000. Nas tardes tinha o Supernova, numa época que o Marcos Mion era legal, menos – MUITO MENOS – cheio de si. Minhas tardes eram nesse esquema:

A verdade é que o Charlie Brown Jr. cantava sobre um cara fodido na vida, mas que achava graça de si mesmo. O sucesso, ao longo dos anos, só fez ele se inflar de si mesmo e se perder no caminho. Mas a verdade é que os anos 1990 eram despretensiosos, engraçados. Hoje, a galera de 20 e poucos anos só pensa em ser hipster e encher o saco – na sua maioria.

Ou eu posso ter crescido e virado um cara rabugento. Acho que eu gostava de Charlie Bronw dessa época por ter menos rap e mais rock e os skazinho na fórmula. Nesse aspecto pode ser uma simples questão de gosto musical. Mas que eu to com a sensação de que tudo era melhor antigamente e a convicção que nenhuma música de rock da última década me faz sentir como Proibida pra mim, Tudo Mudar, Lugar ao Sol, Índios, Nós vamo invadir sua praia, Inútil, Rebelde Sem Causa, Olhar 43, Loiras Geladas, Alvorada Voraz, Rádio Pirata, Revoluções por Minuto, Música Urbana, Natasha, Independência, Fátima, Flores, Marvin, Pra ser Sincero, Infinita Highway, Refrão de Bolero, O Papa é Pop, Malandragem, Segundo Sol, Pro dia nascer feliz, Bete Balanço, Eu quero ver o oco, Mulher de Fases, Pompém, Puteiro em João Pessoa, Que vez, Envelheço na Cidade, Rádio Blá, Daniela, Zé Ninguém, Carta aos Missionários, Camila Camila, Até Quando Esperar, Mundo Animal, Pelados em Santos…

Todos os caras que escreveram as músicas acima estão na casa dos 40 e 50 anos hoje.  Já não são mais moleques e não deveriam tentar parecer um. Mas eu fico pensando, se a minha geração que hoje tem 20 anos não é uma geração de bundões.

Chateação. Eu parei de ouvir Charlie Brown logo depois do acústico… não sei por que, só parei de gostar das coisas que vinham saindo, da atitude do Chorão, das brigas, da formação ter ficado toda cagada… sei lá…

Mas uma morte é uma morte. E até ver a homenagem que o Santos – eu sou santista – fez para o Chorão, eu tinha me recusado a prestar atenção na qualidade e no peso que  as músicas dele tiveram quando eu era mais novo.

Acho que vou tentar lembrar as suas músicas no violão…

Chorão

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Um comentário em “A morte do Chorão e do rock nacional

  1. lima rose
    11 de março de 2013

    Cara, a geração de vinte e poucos anos hoje é a SUA geração pelas minhas contas, já que vc disse que era um pirralhinho de 9 anos em 1997… e quer saber o rock 80 é que era bom, essas bandinhas dos anos 90 tinham uma ou outra musica boa mas no geral era descartavel, um pré-emo como vc mesmo disse. Mas a despeito de tudo isso acho o Chorão um bom compositor sim!

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Publicado às 8 de março de 2013 por em Música e marcado , , , .
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