MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Morte

Palavra difícil.

Quando se perde alguém muito próximo você fica sem chão. Tudo perde o sentindo. Mas você precisa aceitar. A vida que é contrária mas dependente da morte te cobra isso e você precisa se readaptar e buscar algo novo.

Luto. Você olha para os lugares e entra em conflito. Por um lado, a presença da pessoa querida é forte, pelo outro, ela simplesmente não está mais lá. Você passa por um banco em que vocês já sentaram pra conversar e doi pensar que não vai mais poder fazer isso. Você escuta na rádio uma música que costumavam cantar juntos ou que significava alguma coisa ou que serviu de trilha sonora pra um momento e percebe que isso não existe mais. E tudo doi.

“Não tem o que fazer, você já fez de tudo, agora toca a vida”, é uma frase que te dizem e repetem incansavelmente, você se repete. Mas é difícil.

Você olha para o celular, quer ligar, quer que te liguem, um sms talvez, mas nada, só o silêncio e o vazio ficam. Te dá uma ansiedade e uma lembrança do tempo que a pessoa estava tão perto, ao seu alcance ou querendo te alcançar e você deixa de se respeitar e acaba mandando uma mensagem ou ligando. Apenas pra bater de frente com uma dureza ou um vazio e se recolhe, triste. Você fica desastrado, fora de si, e todas as suas atitudes simplesmente não ajudam a situação e você vira algo que não é você mesmo…

Então você se recolhe. E continua a vida. Você encontra pessoas novas, conversa com elas, toca o barco. Mas não deixa de lembrar o quão gostoso era a presença, o dormir juntos, agarrados, os carinhos, as risadas, as conversas… mas tudo se perde. Você não a vê mais nas redes sociais nem nos caminhos que vocês costumavam fazer. Você se fecha e se isola e doa todos os pertences, devolve tudo o que te faz lembrar, bloqueia… porque precisa fazer isso pra seguir em frente e respeitar, deixar a memória dela em paz e tenta tocar o barco.

Mas a vida é tão curta pra desistir daquilo que vale a pena lutar.

Você se arrepende das coisas duras e impensadas que falou e o que era problema um dia, motivo de atrito bobo, fica tão pequeno perto de todo esse amor…

Amor que precisou ficar represado. Amor que você continua sentindo e que você precisa reaprender a lidar.

Um amor que não vai sendo alimentado no dia a dia e que vai diminuindo de intensidade, vai se afogando no decorrer do tempo. A lembrança vai ficando vaga e a vida vai te empurrando. A mágoa e a revolta ainda batem… mas ainda, amor.

Como seria gostoso voltar, como seria melhor, mais maduro, compreensível e mais gostoso, mais leve e saboroso.

A vida é tão curta pra não repensarmos nossas decisões e esticar o braço pra o que gostaríamos de ter por perto. A não ser que já não se queira ter por perto, de jeito nenhum.

Mas a morte leva tudo embora, todas as possibilidades de se fazer algo melhor do que se tinha. Ela põe um ponto final, e é mais duro pra quem fica quando alguém decide dar um ponto final e não volta atrás, só pra ver como seria se desse certo…

O apartamento com samambaias, o Gael, a Lila, os gatos, os filmes nos dias frios, os jogos, os retornos de viagens, as saladas preparadas, os cafés da manhã, os bons dias e as boas noites, as formaturas, os primeiros carros, os cafunés, colos, massagens nos pés, um amorzinho de leve e um soninho, o pastor alemão…

A morte corta tudo, todas as belas possibilidades. Se você opta por ela, tudo o que valia a pena lutar no dia a dia deixa de existir… Mas ela muda as coisas de perspectiva. Você percebe como inúteis eram as cobranças, dúvidas, como seria melhor aproveitar um braço dado, sair mais pra dançar juntos, caminhar lado a lado, não ligaria mais pra atraso nenhum. Aqui, no México ou no Tocantins, na casa de quem for.

E como é lindo mudar. Ver as pessoas mudando, participando dessas mudanças e se vendo mudado também – mesmo continuando com a sua essência. Você amadurece mas depois da morte, ela não está mais do lado pra ver…

Você tenta devolver todos os objetos e todas as lembranças. “Esses foram os seus sentimentos um dia, então toma de volta”. “Você é incapaz de amar se está escolhendo se matar daqui”. Mas no fundo, você espera que ela cuide daquilo tudo e que um dia queira voltar a dividir. Você se arrepende das coisas que disse em momentos de nervosismo.

Como as pessoas se machucam por, às vezes, serem teimosas. Como resistem a ideia da felicidade? Porque muitas vezes não se acham felizes aonde estão?

O que é ser feliz? Não se deve depositar a felicidade em outra pessoa, elas morrem, elas se vão, elas se confundem, se machucam e machucam umas as outras.

Felicidade é atravessar os problemas da vida de cabeça erguida, conquistar seus objetivos, aceitar novos desafios, seguir em frente. Mas a felicidade só é completa se compartilhada – aprendi num filme que uma pessoa me mostrou.

Com quem você compartilha é o que conta.

A vida é tão curta pra não se dar segundas chances.

Em muitos casos estamos a um abraço, a uma ligação de distância dessa felicidade. Estamos há um sms de sair pra dar risada, de poder se abraçar e se esquentar nos corações um dos outros nesses dias frios. Estamos a uma ligação de experimentar de novo e ser feliz de novo, se reconciliar. A não ser que você escolha a morte. Mas o que é bom não precisa ser um relicário, guardado numa lembrança gostosa e dolorida. O que é bom pode ser pra sempre, basta escolher que seja e tentar mais uma vez.

A morte e a separação chegam e a gente muitas vezes não dá uma segunda chance para o que seria perfeito cada vez melhor.

A vida é tão curta pra não se tentar de novo.

 

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Publicado em 17 de abril de 2013 por em Textos e ensaios....
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