MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Um sábado não planejado

A luz do corredor banhava preguiçosamente o quarto. A mãe entra pela porta e o barulho da chuva é insistente do lado de fora. Ela abre a janela. A manhã está pálida, úmida e fria. “Ih, tá chovendo?” A resposta do filho sonolento, “pois é, caiu o maior temporal a madrugada inteira”. Ela diz, “sim, a chuva tá caindo pra limpar e levar tudo de ruim embora”. 

Pausa.

Ele volta a dormir.  Agora eu estou em um navio, fazendo um cruzeiro talvez. Antigos conhecidos e amigos meus. Não sei porquê, mas a Bruna está lá. Estudamos juntos dos sete aos 14 anos. Tive uma paixonite por ela aos 13, claro – no meu caso quando era mais novo – nunca correspondida. Hoje ela mora no Rio de Janeiro.  A gente conversa animadamente no convés da embarcação. O irmão dela liga no celular, eles conversam. De repente, meu corpo é projetado ao céu. Como se começasse a voar. Mas algo dá errado e eu começo a cair no mar. Enquanto caio, penso no Jack, do filme “Titanic”, “a essa altura, você morre quando bater na água”, enquanto tenta convencer Rose a não se matar. Ela ia pular do navio, mas eu caía de muito mais alto.

Desespero, aquela sensação de montanha-russa. Caindo, cada vez mais rápido. Mas a queda foi suave.  Não tenho medo. Alguém grita, “homem ao mar” e joga uma boia salva-vidas. Eu me esforço pra nadar até ela, mas não consigo alcançá-la. Quando começo a ter um pico de preocupação e desespero, me acalmo. Várias pessoas aparecem na amurada, cada uma com uma boia nas mãos. Eles me jogam e chovem boias no mar. São tantas que não preciso me esforçar para pegar três, de uma vez só.  Eles me puxam por cordas e me levantam até o deck. Todos me cumprimentam, felizes com minha segurança e meu retorno ao barco. Corta a cena. Estou indo a uma festa com a Bruna. Aí eu lembro que não a vejo há mais de dez anos e que não sei se é ela mesma. 

Eu acordo.

O quarto está da mesma forma como o vi há alguns minutos, quando minha mãe veio me acordar e estava chovendo. “Eu ia até a Harley-Davidson tomar café da manhã, mas com essa chuva, o Henry não vai querer ir, merda”. A luz do corredor banha o quarto enquanto minha mãe abre a porta. Ela pergunta se estou bem. Eu conto os sonhos.

“As boias são os seus amigos que te ajudaram nessa fase difícil, que agora está acabando”. Sábias palavras de mãe. Ela dá dois tapinhas no meu pé enquanto se dirige até a janela. “Seu irmão vai com você no negócio da moto, tomar café.” Eu lembro da chuva. Ela abre a janela. O Sol brilha forte e o céu está lindamente azul. Ótimo, hoje é dia de andar de Harley-Davidson.

janela

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O vento há 120km/h te arrebata e te acolhe, te envolve, te abraça e te aceita. Ele bate no peito e vai levando tudo o que pesa no coração. A fila de motos é quilométrica, 200, 300 motocicletas, mais de 500 pistões batendo juntos enquanto as pessoas avançam. Uma família enorme de anônimos que não te julga, não fala mau de você pelas suas costas. Cada uma dessas pessoas está disposta a se atirar no meio da pista pra te socorrer.

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Paramos no posto da Imigrantes e encontramos com mais um grupo enorme

Além da sua família de sangue, você escolhe muitas famílias ao longo da vida. A família da sua mulher, sua família de amigos, a família do seu trabalho. Todas elas podem – e algumas provavelmente vão – te desapontar, te julgar ou até te expulsar do convívio delas.

Essa só vai exigir uma coisa de você, pilotar ao lado dela e dividir o vento.

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Nunca tinha descido a Imigrantes em uma moto. A experiência é fantástica. Sempre viajei de carro, muito. De São Paulo a Blumenal, até Fortaleza, Natal, Jacobina, Salvador, Guarapari… sem contar as viagens durante cinco meses na Carreta da Saúde em 2011 pelo interior de Goiás e Tocantins. Mas estar em um automóvel te isola das coisas. Parece que a paisagem é vista pela tela de uma televisão. Você está “dentro do carro” e não “na estrada”. Com a moto é completamente diferente. Você está na estrada, se para, põe o pé no chão, um chão diferente do que você conhece, um chão que seus pés nunca pisaram. Encarar a descida da Serra do Mar e perceber que você faz parte daquela paisagem linda, enquanto o vento te limpa a alma a seco, é uma experiência libertadora.

No Guarujá, a polícia militar para o trânsito nos semáforos para passarmos e todos saíam às janelas para observar o barulho, o volume do cortejo. Na orla, crianças apontavam os dedos, homens e mulheres sacavam câmeras e celulares e todos ficavam boquiabertos ou com um sorriso no rosto.

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Andar de moto é assustador, essa tal liberdade não vem de graça. Você pode a qualquer momento cair e se machucar.

Mas não é pela adrenalina que você monta em uma Harley-Davidson e sai pela estrada. É pela jornada. Ali estavam pessoas que seguem em frente. A vida pode trazer os problemas, o tempo pode fechar, você pode estar com o traseiro doendo e as pernas quentes por estar perto do motor, você continua, até a próxima curva, até a próxima parada, até a próxima emoção, até a próxima fase, até o próximo amor, até a próxima escolha.

A vida é assim, você tem que continuar andando. Por isso que a máxima do Johnny Walker é tão boa. Keep Walking. Por que não “Keep Riding”?

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Todas as vezes que desci de carro para o litoral, sempre me preocupava com o horário, o trânsito – detesto ficar parado no trânsito. A sensação de estar preso, engaiolado, sem ter pra onde ir me incomoda demais. Por mais que eu coloque uma música que gosto, acendo um cigarro e reclino o banco, a sensação não passa. Portanto, na estrada sempre me preocupei com o horário. Dessa vez, simplesmente não pensei nisso. Não porque imaginei, “não quero olhar o relógio pois estou numa Harley e não quero saber. Mas sim porque esqueci completamente. Só fui aproveitando o vento, a vibração do motor, a paisagem, a alegria e a liberdade.

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Fomos até o Jequiti, um resort lá na Praia de Pernambuco. Um almoço ia acontecer lá, centenas de pessoas, centenas de motocicletas estacionadas num pátio enorme. Os momentos mais felizes da sua vida podem se resumir a um almoço. Dividir a comida que te alimenta, sustenta seu corpo junto a pessoas que te amam, que gostam de você, seus amigos.

Saímos de lá e pegamos a balsa até Santos.

Harley Davidson - Caio Neumann

O Raul, pai do Henry, conhecia “o melhor bolinho de bacalhau da cidade”. Ele estava certo. Almoço fenomenal, com amigos fenomenais. Henry, Retti, Tomé, Raul. Risadas, bobagens, alegria, Sol, boa companhia e ainda mais estrada pra pegar. Isso é tudo o que se precisa da vida.

Caio

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Apesar de aparecer no espelhinho escrito que objetos podem parecer maiores ou mais perto do que realmente estão. Na estrada, a única coisa que o retrovisor mostra são os seus problemas ficando menores e insignificantes, cada vez mais pra trás.

E é rodando que você realmente se encontra.

Home, sweet home

Home, sweet home

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Publicado às 29 de abril de 2013 por em Diário de um Hóspede e marcado , , .
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