MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

O Sol se põe, mas é um novo dia que chega

17.06.2013

As mãos tremem ao escrever este texto. O cansaço das semanas de árduo trabalho reclamam meu corpo. O sono, tão negligenciado por tantas noites em frente a tela do computador, preocupações, obrigações… pra ser chamado de classe média estudantil que reclama sem porquê.

Ainda assim, a ansiedade e a euforia tomam conta de mim. Meus amigos e conhecidos estarão lá. Até minha chefe liberou todos mais cedo. As ruas com o trânsito carregado no meio da tarde. O clima é de jogo de copa do mundo. Todo mundo saindo mais cedo do trabalho pra assistir aos jogos com os amigos e família. Comércios fechando as portas antes das 17h.

Soldados pacíficos marcham na Marechal Teodoro Sampaio. Um cartaz me chama atenção, “ponto de apoio” e mais estudantes em frente a ele. Pergunto para uma menina, mais nova que eu e usando um jaleco branco, “vocês que se organizaram?” Ela explica, “o C.A. de Enfermagem da USP. Somos estudantes de enfermagem e estamos aqui pra ajudar quem precisar”.

Quando saio de entre os prédios e piso no Largo da Batata – não consigo evitar de encontrar um humor no fato da revolta das saladas acontecer lá – a multidão me toma, me absorve e eu me perco das colegas de trabalho.

Uma bandeira partidária se levanta. “SEM PARTIDO! SEM PARTIDO!” A multidão grita em coro. Lembro das inúmeras vezes que entrevistei Ricardo Young, hoje vereador. Por traz da sua barba de papai noel, o vozeirão largo, pesado, dizia, “o modelo que aí está, está esgotado! Existe um esgotamento do modelo político adotado, de gestão e é na inventividade do jovem que a gente encontrará soluções”. Neste final de semana, trabalhando no festival da Mantiqueira, escutei do poeta José Moraes, “vivemos em uma democratura”. Também acho. Os governantes se cobrem de uma armadura burocrata e propagandística eleitoreira e se perpetuam em funções, cabides de empregos e por aí vai.

“Não é comício!” “Baixa essa bandeira!” “Ei partidário, vai pra casa do caralho!” “A luta é sem partido!” “O povo unido não precisa de partido”.

De qualquer maneira, tem gente que realmente “fode com o rolê”. Encosto em uma grade, pra ver se fico mais alto pra um grupo de amigos me encontrar, ao meu lado, um grupo de pseudopunks provocam tudo e todos. “Hoje eu vou sair na porrada. Quer me dar o primeiro soco na cara pra começar?”, um deles joga no ar.

Ainda assim, leio um cartaz, “somos uma ideia”. Que ideia é essa? Quase impossível descrever. Cada um com as suas peculiaridades, histórias, nuances, seus gostos, somos indivíduos e individualistas. Mas hoje, todos estamos unidos pelo cansaço, pelo saco cheio – inclusive os pseudopunks ao meu lado.

Somos uma geração pragmática, consumista e viciada nos nossos celulares, notebooks, tablets. Escuto isso toda hora dos “articulistas”, chefes de redação, professores de faculdade, o ex-reitor da minha faculdade, especialistas em qualquer coisa. Adivinha, vocês são nossos pais! Os manifestantes não têm mais de 25 anos de idade, jovens reclamando sem saber o que dizer. Não participamos dos protestos de impeachment do Collor, ele continua sentado na máquina pública. No mínimo, foi um trabalho feito pela metade.

Nada muda no Brasil há 500 anos. Quando alguém propõe uma mudança, ganha um tapinha nas costas. Quando continuam reclamando, viram chatos, “deixa disso”. O tapinha nas costas vem acompanhado de um aperto de mão daqueles de campanha eleitoral e uma terceira que não sai do seu bolso. Mas seu bolso não pode ser definido pela materialidade do seu dinheiro, não é pelos 20 centavos.

Façamos um exercício. Tempo é dinheiro, dinheiro é tempo, no seu bolso está o seu tempo. O que eles roubam é o seu tempo, suas oportunidades. O tempo que você fica preso no trânsito, no ônibus e metrô lotado, na sala de espera de hospitais ruins, esperando pra resolver qualquer pepino no Detran ou em órgãos públicos, levando protocolos pra cima e pra baixo. Os anos que você fica em salas de aula precárias, que não te enriquecem como ser humano, como deveriam. Tempo que você trabalha a mais pra pagar por serviços básicos particulares. Tempo que você poderia estar passando com sua família, sua namorada, seus amigos.

Pausa.

Não consigo encontrar meus amigos. O sinal dos celulares cai. Não consigo ligar pra ninguém. Ah é, nossa telefonia móvel é uma bosta, quase esqueço. Wi-fi público, um sonho. Escolho um ponto alto e passo a devorar as linhas desse caderno. Acabo encontrando outros amigos e conhecidos, que eu não sabia que estariam aqui. Trocamos breves palavras e eles seguem a marcha pela Faria Lima. Ainda assim, não me sinto sozinho.

Eu sei que tantos outros amigos, que estão em casa, não me deixam sozinho. A indignação é vasta, mas não é totalitária, nem deve ser, nada deve ser totalitário, unanimo. Também não culpo aqueles que mudaram de opinião da semana passada pra essa. Nem os jornais e veículos de comunicação que mudaram de lado de um dia pro outro, percebendo a tendência da opinião pública. Mudar é bom, mudar de opinião faz bem. A mudança não é o ponto deste protesto? Fazer as pessoas que não estão lá perceberem que existe uma voz questionando? E abrir espaço pra que façamos um coro maior, mais alto, pra ser ouvido e mudar alguma coisa?

Encontro outro grupo de amigos, eles me chamam pra caminhar com eles. “O povo acordou! O povo acordou!” o cortejo grita. Se acordou mesmo, o despertador foi um projétil de 12mm de borracha, elastômero, bem no meio do olho. Que veio da seringueira, direto da Amazônia, atravessando os séculos de idiotice de quem nos governa. Acordou com os olhos lacrimejando por conta do gás e do spray de pimenta que fez arder o coração de São Paulo semana passada.

Aqui não, essa noite não. Sem violência, por favor, a gente protesta com batuque. Nós não precisamos de bombas, os únicos “tum dum” que a gente quer é o do samba, dos nossos corações, dos nossos tambores em festa. Não, não precisamos de borracha em projéteis e cassetetes. Queremos é do lápis e da borracha pra reescrever o que tá tão mal escrito, há tanto tempo. A pimenta? Por favor, só se for no feijão, todos os dias, nas barrigas de todos.

Precisamos é de políticas novas, um modelo novo, novos políticos. Pra isso acontecer, meu amigo, só se você mudar a sua maneira de agir e pensar.

Sem violência hoje porque o grupo se autorregula, a comunidade cuida dela mesma. Como no Wikipedia, por exemplo. A noite é de indignação, mas o coletivo é pacífico.

O asfalto borbulha sob os pés de tanta gente. Os vidros dos prédios vibram com as palavras de ordem. Quantos conhecidos encontrei, perdi a conta. Enquanto escrevo essa frase, meu amigo e colega do CAJ – Curso Abril de Jornalismo, Marcel, me encontra. De certa forma, nos emocionamos por sentir uma irmandade e uma amizade com um sentimento em comum, o da indignação e vontade de mudança. Nos despedimos. Por um momento, lembro dos meus sonhos enquanto jornalista, penso nos meus sonhos sobre a sociedade em que eu quero viver, que meus filhos nasçam e cresçam e experimentem a felicidade. Tenho vontade de chorar, meus olhos marejam. Me julguem.

Quem não quer viver em um mundo melhor?

Os mais velhos, cínicos e espertalhões, me taxariam de inocente, imaturo, sonhador. Espertalhões como esses que usam as ferramentas da burocracia pra ressuscitar nos palácios a cada quatro anos. Espertalhões que te beliscam pouco a pouco, sugando seu sangue como insetos, gota a gota.

Mais uma vez, eu choro. Tiro uma foto com o meu smartphone que custou um mês inteiro do trabalho de um cara que me atende no McDonald’s e me faz ficar irritado porque demora com o meu lanche, um mês de salário de um policial truculento e mais que um salário de um bombeiro que vai passar esta noite acordado, de plantão, pronto pra te socorrer caso aconteça alguma merda.

Celular pago a prestação – diga-se de passagem – você quase não sente, em dez vezes… da mesma maneira que os impostos abusivos nos são cobrados – e desviados – a prestação. De 20 em 20 centavos.

Eu sei, meu amigo, estou me estendendo demais neste texto. Assim como a fila gigantesca de pessoas no protesto, por quilômetros a multidão se estende. Mas tenha paciência. Principalmente pras coisas certas. Não tenha paciência com governos incompetentes ou com o comodismo de nós mesmos. Mas sim, pra ler sobre os problemas que nos cercam. PEC 35, política de investimentos dos estádios da copa, como funciona sistemas de licitações, parcerias público-privadas que regem nosso transporte público, política de investimentos pra saúde, educação etc.

Tenha vontade de entender o que acontece por trás dessa cortina de ferro burocrática. Aprender sobre a sua sociedade é aprender sobre quem você é! Abrace a oportunidade de acordar pra um novo dia.

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Publicado às 17 de junho de 2013 por em Caderninho, Política e marcado , , , , , , .
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