MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

A Sala do Trono da Vida

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Há tempos ele rondava a Terra. Milhares e milhares de anos, indo, voltando, experimentando, errando, eventualmente acertando.

A procura de um coração feito o dele. Tentava e não dava certo. Tentava de novo, mais um erro.

Rondava e rondava, mas não encontrava. Esbarrava aqui e ali, em muitos momentos, apenas poucos metros os separavam, mas ainda não era hora e um “oi” de um amigo qualquer os separava, uma questão respondida diferente no vestibular. “Não”, a VIDA dizia, “ainda não é hora”.

Às vezes, durante o sonho ele conversava com a Vida. Uma encarnação e existência após a outra.

– Porque ainda não? Vamos evitar tantas lágrimas, tanta angústia, tanta tristeza e incerteza…

E ela lhe respondia, com sua sabedoria eterna, do alto de seu humilde e imponente trono, de expectador onisciente.

– Vão evitar também de se valorizarem, aprenderem com cada lágrima e cada angústia. Cada uma delas e cada decepção será um grão de açúcar que tornará seus dias no futuro mais doces. Cada incerteza de hoje, um raio de luz que iluminará o caminho um do ouro amanhã. Luz essa que guiará as estradas pra vocês se reconhecerem e enxergarem o coração um do outro, entenderem o valor um do outro.

Incansável, ele argumentava:

– Mas até lá, terei ciúmes e inveja da estrada percorrida sem mim. Cada sorriso, olhar apaixonado, lágrima que não foi minha. Por que dispensar estas pérolas preciosas a quem não dará valor? Eu darei. E se ela realmente se apaixonar eternamente por um desses e manter em segredo pra sempre? Lhes visitar em lembranças e sonhos, que ela tornará preciosas?

Mais uma vez, a vida respondia:

– Porque todos e cada um deles há de aprender com isso. Não é você que acredita que no meu seio não existem vilões? Oras, não prega que todos estão em evolução, existência após existência? Ela precisa aprender com estes episódios e personagens, e eles também, e principalmente você! Ah sim, você, ó homem ignorante e orgulhoso. Não pense que teu reino, tua história e teus problemas pequenos são de minha seara. Tudo se resolve de maneira muito simples, zera o teu débito assim que morres – e mais uma vez quando renasce e esquece tudo o que aconteceu antes, mesmo teimando em carregar esse orgulho tolo e possessividades nulas e ignorantes.

Assimilando o volume das palavras que ecoavam no salão escuro, mais uma vez, tentava argumentar enquanto entendia e construía em sua mente limitada aquele pequeno grão de areia de toda a sabedoria da vida.

– Mas a gente vai se machucar demais pra chegar nisso.

Sem se distrair, sem mover os olhos do vazio que nada escapa, ela respondeu:

– E o doce desse sentimento, dos dias que virão, dos momentos minúsculos e eternos nos braços e pensamentos um do outro não valerão a pena?

Silêncio.

Ele se recolheu e com o tempo e renascimento, esqueceu. Viveu, Viveram. Se enganou e pegou uma estrada tortuosa. Como tinha de ser, necessário a cada um.

E mais uma vez, se via no escuro. Tudo escuro, o único som era o soluço, o gemido e a tristeza.

Profundo de quem se apega aos curtos episódios difíceis que a vida traz. Tantas lágrimas. Tantas lágrimas correm copiosas quando nos prendemos a um único e curtíssimo momento, se comparado a eternidade do espírito. Mas quando estamos vivenciando esse pequeno intervalo, tudo parece condenado.

Ela lhe deitava a cabeça no colo e o fazia um leve carinho. Quando ele murmurava algo em sua febre, ela respondia:

– Calma que as coisas vão se acertar quando menos imaginar.

Até que de uma janelinha minúscula e branca, debaixo de uma tela, uma pequena luz apareceu.

– Oi!

Então ele percebeu, que uma pequena flor, negligenciada propositalmente há muito tempo, apareceu. A Vida abriu uma cortina de um dos cantos de seu grande salão. Ele, que havia se esquecido desse lugar desde que renascera, como que bebendo uma poção, restaurou toda a memória espiritual e afetiva. Não dava pra segurar, os perfumes da rosa conversavam com sua essência, chamando e tragando-o por inteiro para passar pelas cortinas, há tanto esquecidas…

E a Vida, diante de seu trono, lhe sorriu. Ainda com os olhos vidrados, vendo tudo no mundo, lhe sorriu.

Ele a fitou mais uma vez e percebeu, que ela estava sempre lhe sorrindo. Tudo o que precisava fazer, era sorrir de volta.

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Publicado às 28 de agosto de 2013 por em Caderninho, Contos, Crônicas, Textos e ensaios... e marcado , , , .
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