MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

A(‘) noite

A noite chama. O mundo é novo e tudo se mistura. O calor, o suor, a maresia, a noite a cidade, as luzes, as mulheres a escuridão.

Nada é em vão e tudo precisa ser tomado, goela abaixo para saciar essa sede sem fim. Sede de vida, sede de suspiros e gemidos, sede de anatomia e risadas à toa, frenéticas, perdidas.

A noite é calorenta e o barulho do mar não se faz escutar. O vento que levou a tempestade pra longe é mais alto. No horizonte, escuro e longe, invisível, apenas os raios rasgam as tripas das nuvens de vez em quando. Magníficos e assustadores.

Não meus amigos. Esse não é um poema de amor. Enquanto os raios chafurdam no céu, rasgam pedaços do meu estômago. Meu estômago, judiado por anos de cigarros e sapos engolidos.

Eletrificado, mortificado, petrificado, perpetuado.

All over and over and over again.

Mas esse não sou eu escrevendo essas palavras por conta de uma conta de e-mail esquecida aberta aqui. Olhos que não espiam, dedos que não tocam, língua que não lambe. Não.

É apenas reflexo. Janela aberta, tela estendida, branca, lambendo meu peito nu e a vontade de escrever ao léu. Escrever, escrever e escrever enquanto o sono escala minha espinha lentamente (demais) entre incertezas, novidades e memórias e muito mais do que se espera do futuro.

Ah sim, meus dedos não falham, encontram cada letra no escuro do teclado e eu vorazmente devoro suas teclas. Como se estivesse correndo lá embaixo, na areia, quilômetros e quilômetros. Até minhas vias aéreas arderem, eu que corria tão bem. Até eu me atirar no mar. Eu que nadava tão bem. Até eu gritar alto. Eu que gritava tão bem.

Se pudesse, estenderia minhas mãos a todos meus amigos, estenderia minhas mãos aos céus. E voltaria, quem sabe, um dia, a compor belas melodias e belas músicas e sonhar com uma vida que não é minha. Viagens, charme, bagagem.

Não. Trabalho, trabalho, trabalho é o que nos resta. E um toque de incerteza e falta de dinheiro pra fazer tudo o que se gostaria tentar de fazer. Alguma paz espanta o espectador, o protagonista.

Alguma incerteza e uma vontade de escrever coisas sem nexo, quando o único sentido é o teu peito e teus quadris, que são só seus e de mais ninguém, nem meu nem de quem já por aí passou.

O raciocínio é por si só elaborado demais. Mas o sentimento é inquieto e cru.

Noite

 

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Publicado às 4 de janeiro de 2014 por em Caderninho, Textos e ensaios... e marcado , , , , , , .
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