MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Somos todos favelados

São Paulo

Há uma semana da Copa do Mundo no Brasil.

O trânsito me engole, me envolve, me acolhe dentro do meu carrinho popular (na verdade emprestado dos meus pais). Decidi deixar a moto em casa e dar uma carona para a namorada. Afinal, trabalhamos na mesma agência.

A incerteza já começa no dia anterior. “Vai ter greve no metrô?”

“Não sei… não vai… vai”.

Eu peguei meu carro porque o dela cairia no rodízio hoje.

Mas o rodízio foi suspenso. Quem me informou foi meu sogro, ontem, às 21h.

Por algum milagre, hoje o meu humor não foi afetado pelo anda e para, anda e para. Eu olho para os carros em volta e vejo, logo atrás de mim, um Toyota Corolla novinho, que custa uns R$60.000 em média. Nele, uma menina com o uniforme escolar com cara de assustada e um tiozão, meio gordo, com roupa social e um celular pendurado na orelha enquanto dirige.

Eu penso nos vidros escuros do carro, todo fechado, com certeza o ar condicionado estava ligado e eles estavam atrasados. Já era mais de 10h30 da manhã.

Acendo um cigarro pensando que essa porcaria mata. E penso nesses dois, fechadinhos em sua fortaleza metálica. E eu na minha. Tento contar o número de carros no meu campo de visão, mas é impraticável. Tanta gente, tanta gente junta e pensar que há 300 anos tudo isso aqui era mata.

Estou no acesso da Radial Leste-Oeste, do lado da estação do metrô D. Pedro II. Observo a estrutura de concreto que lineariza o rio Tamanduateí, as vigas maciças que sustentam esse viaduto. “Quanta grana e trabalho braçal essa obra deve ter consumido?

Eu olho pra igreja do Glicério e penso nos milhares de haitianos que estão entrando no Brasil pelo Acre e desembarcam em São Paulo buscando uma vida melhor.

Eu vejo trapos pendurados nas janelas dos prédios pobrinhos do centro e na gambiarra de postes e ligações de luz clandestinas ou não que deixam a paisagem feia demais, mas que devido ao costume, você passa a ignorar.

Somos favelados em crise de identidade. A Copa do Mundo está nos forçando a olhar diretamente para o espelho e ver cada grande falha na nossa sociedade, nossa estrutura e estamos insatisfeitíssimos. Sempre buscamos virar a cara para nossos problemas, assim como nunca reparamos nos fios e postes que deixam nossas cidades horríveis.

O povo do jeitinho, de varrer a sujeira pra debaixo do tapete.

Sim, somos favelados.

Na favela não se constrói uma casa ou um lote de maneira estruturada. Vai se fazendo um puxadinho aqui, outro ali, vão se formando ruas conforme se dividem os lotes, conforme o terreno – normalmente – tortuoso e cheio de subidas e descidas íngremes – permite. Vai se fazendo como se pode. Entra uma graninha esse mês, se compra um pouco de material, sobe mais uma laje ou uma parede. As casas vão se encostando umas nas outras e aguentando seus pesos. Cheio de rachaduras e problemas estruturais, os “gringos” ficam maravilhados com a “criatividade” das “slums” brasileiras.

Nosso poder público faz a mesma coisa com a cidade. Tudo é uma colcha de retalhos não planejada e de geração em geração se aumenta o improviso. Um adjetivo que define: paliativo.

Estou sobre  a Radial e penso no Minhocão. Elevado Costa e Silva, homenagem a presidentes da ditadura militar.

Praça Marechal Teodoro - Sim, essa era vista do Minhocão, antes de ser Minhocão

Praça Marechal Teodoro – Sim, essa era vista do Minhocão, antes de ser Minhocão

O jornal O Estado de S. Paulo criticou a obra, em dezembro de 1970, alegando que ela não tinha “um objetivo definido”: “A via elevada não é resposta a nenhuma pesquisa de origem e destino da população, não tem um objetivo definido. É apenas uma obra. O prefeito [Maluf] já tentou explicá-la, mas não apresentou nenhum argumento técnico, nenhum dado de pesquisa.”

Houve críticas, ainda, relacionadas à obra do Metrô, que teria sido atrasada por causa do Minhocão, que também causaria mudanças no trajeto da então futura Linha Leste-Oeste, que passaria sob a Avenida São João, mas teria de mudar de lugar ou receber um método de construção mais caro, por causa dos pilares do elevado.1 Ainda hoje, não é bem visto pela população da região, devido à desvalorização dos imóveis próximos e à deterioração do local.

Em 1976, o Minhocão passou a ser interditado à noite, medida adotada para evitar os acidentes noturnos, que se tornavam rotina, e para a diminuição do barulho na região. Em novembro de 1989, a então prefeita Luiza Erundina determinou que ele fosse interditado das 21h30 às 6h30.

Em 6 de maio de 2010, foi divulgado, pelo prefeito Gilberto Kassab, projeto visando a sua demolição. Conforme a Folha de S. Paulo, agentes do mercado estimavam que, se isso ocorresse, não o seria antes de 2025. (wikipédia)

Lendo esse trecho me dá uma vontade sem tamanho de surrar o Maluf. De verdade, pegá-lo pelo colarinho e lhe dar uma bela de uma surra. Por cada voto que meus pais deram pra ele. Por cada voto que eu,  na minha osmose política dos 13 ou 14 anos, achava que as pessoas deveriam dar pra ele.

Não me entenda mal, eu também queria surrar o Lula. Por outras tantas razões e violentá-lo com o Jegue que ele sugeriu que os brasileiros fossem aos jogos. E o Serra também, outro escroto. Assim como seus partidos. Toda vez que eu assisto a uma propaganda do Tribunal Eleitoral, com musiquinhas idiotas falando pro povo ir pra urna, me enfureço. O voto devia ser facultativo e ponto. Vota quem quer. Se abster é um direito do cidadão quando não está satisfeito com as opções disponíveis. Mas me tiram esse direito. Preciso justificar, enfrentar toda a fila pra chegar na urna e anular meu voto. Veja bem, anilar e não apenas votar em branco.

Esse é meu instinto básico, mais cru e simples, de procurar compensação, por todos os problemas que a estrutura do Estado me traz na vida, por cada muitos reais que eu pago de imposto e eles desviam.

Não, eu não condeno quem sai quebrando tudo em manifestação. O sentimento de abandono e revolta são muito grandes. Mas eu não participo, prefiro me afastar e tentar manter minha integridade física. Eu não condeno também, quem pára avenida pra fazer manifestação – por mais que isso faça me atrasar dentro da minha rotina.

Acordo de manhã na minha cama (na fabricação do tecido da roupa de cama teve imposto, na cama, teve imposto). Levanto e vou escovar os dentes (a fabricação da escova teve imposto, na pasta, teve imposto). Vou tomar banho. (Pago pra usar a água que o governo trata, perde 25% por causa das tubulações mal cuidadas e tá passando por uma baita crise por causa da seca do último verão). Pego meu shampoo (imposto), sabonete (imposto), me enxugo com minha toalha (fabricante teve que pagar imposto).

Coloco minhas roupas (imposto)….

Porra, eu vivo pra pagar imposto. E o governo dá uma beliscadinha em exatamente tudo o que a gente faz. Ano após ano.  O Estado de São Paulo – 25 de fevereiro de 2014: “Arrecadação recorde de impostos soma R$ 123,7 bilhões em janeiro. Montante supera antiga marca histórica, de janeiro de 2013, em 0,91%”…

Toda essa grana em um mês?  E cadê essa grana toda revertida para a população?

Em uma escala micro, é exatamente o que acontece com os milicianos de Tropa de Elite 2, do José Padilha. “CPMF: Comissão pra policial militar filha da puta”. Ou Comissão de Político de Merda Filha da Puta. Tudo o que troca de mãos ganha uma beliscadinha do poder vigente.

Debate político é bom. Mas a gente tá precisando de mais ação. Precisamos de uma reforma na nossa favela o quanto antes. Reforma tributária, reforma política, reforma de mentalidade. (Os donos da casa e vizinhos não podem ficar falando e falando e não levantar a bunda do sofá pra reformar a casa. Precisa trocar as janelas, passar massa fina, checar os conduítes, instalação elétrica, de água, fazer o piso…)

Não apenas reforma de asfalto pra gringo ver e achar bonito. (Pintar as casinhas da favela todas coloridinhas não resolve).

Se o Brasil fosse uma casa, os brasileiros uma família e  -já que somos tão patriarcais – o Estado fosse nosso pai. Ele estaria enchendo a bunda de grana – com os frutos do nosso trabalho – e estaria indo na rua gastar com drogas, putas e jogatina.

E na hora de posar para uma fotografia de família, exigisse que a gente fizesse pose de aristocrata.

Nossa aparência vai muito além da primeira vista.

Mas a gente vai seguindo, enclausuradinhos em nossos carros – cada vez mais modernos, tecnológicos, confortáveis e potentes. Em nossos trabalhos – trabalhando 2.600 horas por ano só para pagar impostos e ter meu bem estar ignorado pelo poder público.

Depois dessa breve reflexão eu sigo meu caminho…

Opa, espera.

Não, não sigo. Fico parado no trânsito.

 

 

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Publicado às 5 de junho de 2014 por em Crônicas, Política, Textos e ensaios... e marcado , , , , .
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