MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

2# – 100 DIAS ESCREVENDO (Tatu não sobe me árvore)

TATU

 

“TATU NÃO SOBE EM ÁRVORE. SE TÁ LÁ É PORQUE ALGUÉM COLOCOU”

Essa máxima eu ouvi de uma amiga carioca.  Isso foi há algumas semanas. A noite era chuvosa e fria e eu começava a pensar não ter sido uma boa ideia ter ido ao bar.

A cadeira de madeira não me deixava confortável e a cerveja não animava nada meu paladar. Nada disso fazia sentido a não ser minha cama quentinha lá em casa. E eu ainda tinha que atravessar a cidade de moto.

Mais um copo, pero no mucho, e passo pro refrigerante. O sono e as conversas se misturavam formando tudo um caldo só, aguado demais pela garoa fina.

Quando a frase surge e me esbofeteia abrindo um sorriso largo acompanhado de uma risada dessas que lava tua alma. A cabeça viaja no desenho psicodélico da parede…

Há lugares e lugares. Tem lugar que parece uma plantação, um pomar de tatus que se desenrolam por muitos e muitos alqueires. Para todos os lados, eles ficam encolhidos, em formato de bola, penduradinhos em seus galhos, sobrecarregando quem está se segurando com unhas e dentes no tronco das árvores.

E eu vejo companhias cometendo harakiri a todo momento, sangrando talentos enquanto a fome da percentagem de lucro as cega, o ego dos seus líderes cega.

As demissões acontecem em massa, os corpos vão boiando pelo rio… e a metrópole segue.

Mas tatu é carne gordurosa, te deixa inflada, pesada, lenta. E o coração precisa se esforçar demais para bombear sangue por toda essa estrutura. Qualquer iniciativa é trancosa, qualquer novidade é rechaçada e você sobrecarrega seus pés.

Meus pés estão encharcados, a bota não vence a chuva e sobre a moto, eu vou desviando dos carrões do trânsito.

Vou lembrando de uma mulher muito gorda, professora de português do Estado. Na sua escola, há muitos e muitos anos ela diz que vai se aposentar. Ela vive no seu sofá, separada do marido, remoendo suas chagas do passado.

A família pra ela é tudo e ela recolhe suas filhas pra que elas sustentem todas as suas ânsias por um pouquinho de carinho e amor. A TV é o teu fogo, sua casa, seu reino. Vazia, ela dificilmente deixa suas crias viverem as vidas delas. Interfere em todos os assuntos, castra todo ímpeto de liberdade delas.

Ela não tem mais paciência pra entender seus alunos, a cabeça que chega perto dos 60 já não acompanha a mentalidade dos jovens de 15. E tudo é um suplício pra ela. Há décadas na mesma função, ela virou um tatu em sua bolinha. E ai de quem chega novo no pedaço, todo topetudo e dê palpite no velho jeito de fazer as coisas, na velha maneira de dar suas aulinhas…

Essa única personagem -fictícia- exemplifica  o grande mal do Brasil. Os tatus que inflam a estrutura do estado. Pessoas que apodrecem dentro de suas baias sem mexer um centímetro além do esperado – ou até menos – e que só “vão levando” a vida  aos poucos.

Triste tatu, tristes tatus, não percebem que os galhos em que se encontram acabam sendo jaulinhas com uma bela vista. Eles não saem do lugar a não ser que alguém venha e os pegue pra os realocarem pra outros galhos.

Dica. Correndo no chão, alguém escala montanhas muito mais altas que qualquer árvore.

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Publicado às 26 de junho de 2014 por em Textos e ensaios... e marcado , , , , , , .
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