MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Mendigo

O passo corrido,  o final do dia de trabalho. Cansativo.

Na porta da estação do metrô Hospital das Clínicas um mendigo está em sua cadeira de rodas.  Sem a perna direita, ele está sempre por lá ao final do dia. Parado, observando tudo.

Por mais que tenha passado por lá no mínimo duas vezes por dia durante quase dois anos – ou até antes, quando era mais novo – sob chuva, frio e sol forte,  mantenho a memória de garoa quando penso naquela rua. Garoa fina e incômoda, fôlego entrecortado por conta da subida da Rua Teodoro Sampaio. Mesmo com suas árvores frondosas e verdes e seu canteiro com múltiplas plantas. As costas do Instituto Médico Legal e o cinza da estação – mesmo com seus detalhes também em verde por conta da cor da linha do metrô.

Sinceramente, não sei se aquele senhor é o mesmo desse vídeo fenomenal do Fernando Dassan e da mostra de fotografias que estava em exposição na estação das Clínicas durante o mês de outubro e que vai pra Luz em novembro. (Do projeto Memórias da Rua)

Seu nome é José Aparecido Nogueira Marquetto.

Me pergunto se não consigo identificar se é o mesmo mendigo por sempre desviar o olhar quando o vejo por lá, por não suportar seu cheiro e a visão de sujeira sobre suas mãos, barba e pernas.

Agora percebo como falhei como jornalista.

Deveria ter o olhar sempre atento para essas realidades, para pequenos fatos do cotidiano que guardam surpresas fantásticas por trás de uma imagem enxergada com conformismo.

Um tesouro a céu aberto. A consciência e inteligência desse senhor me tocaram profundamente. Sua clareza em avaliar as mazelas que atingem a mim e a você, por trás de nossas telas de computador e smartphones, quase sempre passando a vida correndo atrás do inalcançável desejo de dinheiro e status quo.

“É o poder, o prazer e o ter. É a nova trindade da sociedade moderna. E quem tem pouco, se envaidece do pouco que tem. Quem tem muito se envaidece do mundo, e quem não consegue entrar nesse time seleto, é tratado com pouco caso”.

Conheço, já trabalhei e existem no meu círculo íntimo pessoas que se julgam tão superiores aos outros. Pedantes de classe média, mesquinhos – que não sabem o que quer dizer “descalabro” ou se coloca, usando o português tão bem quanto esse senhor.

As eleições mostraram exatamente isso. Amigos pró Aécio que julgaram os nordestinos ou qualquer um que tenha votado na Dilma. E amigos pró Dilma (ou PT) que agora se colocam como superiores falando para os outros “pararem de chorar, já ganhamos e ponto” e resmungarem sobre os resultados das eleições.

Ambos, errados. Assim como toda a política está errada.  Por enquanto, estamos falhando enquanto sociedade porque não temos coragem de olhar no espelho e perceber o quanto estamos falhando como  indivíduos.

“A imprensa aponta a corrupção, mostra o descalabro e o indivíduo é reeleito depois”

José Aparecido Nogueira Marquetto

Moradores de Rua – José Marquetto from Fernando Dassan on Vimeo.

Imagens e edição: FERNANDO DASSAN
Música: HENRIK GÓRECKI “Sinfonia nº3 opus 36” – III Lento (cantabile semplice)
Agradecimentos: MIGUEL CASTELLO e TÉO LORENT

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 5 de novembro de 2014 por em "Interantissedades", Cidade, Crônicas e marcado , , .
%d blogueiros gostam disto: