MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Riding from 2014 to 2015

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31 de dezembro de 2014

Mais de um mês sem a moto. Perdi o DUT – Documento Único de Transferência que estava junto com o CRLV (Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo. Burrice. Alimentada pela correria de final de ano que já se aproximava em outubro.

Atravessei todo o mar de merda burocrática que é depender do Detran, máquina de assalto governamental ao cidadão. Lá se foram quase R$500 pra recuperar os documentos perdidos. Três semanas com ela e a bengala do amortecedor frontal apresentou vazamento, contaminou uma das pastilhas de freio dianteira. Bum! Lá se vai mais dinheiro.

Nessa hora você faz o que dá pra se fazer, toca o foda-se, “parcela essa merda no cartão” e toca o barco.

O vazamento foi percebido porque acabei trocando o Sissy Bar (o encosto do passageiro). Já tinha combinado de comprá-lo do amigo. Mas eu ia vender o antigo que de quebra e pra me deixar ainda mais no prejuízo, roubaram. Aconteceu na porta de um bar, na Vila Mariana. Durante os 40 minutos que não estava olhando pra ela, sob uma chuva torrencial, dessas que param a cidade numa sexta-feira à noite e tudo vira caos, algum fdp teve a pachorra de desparafusar a barra de ferro que o prendia à motocicleta.

Mas agora ela tá tinindo. Linda, feroz, bojuda. E tudo o que eu queria/ precisava era pegar uma bela estrada com ela. E ainda ganhei um par de alforges lindões do melhor amigo do meu irmão.

*

Dia 24 de dezembro de 2014. Véspera de Natal. Família reunida. Aquela coisa toda. Vem a virada e o grande presente é o anúncio de mais um sobrinho(a). A terceira criança da nova geração lá de casa, primogênito(a) do irmão mais velho. Só alegria.

A madrugada vem, champanhe, festa, sono. O sono que não vem. Depois de todos irem embora e uma leve ajeitada na casa, banho e cama! Mas o sono não vem. Nem tanto pela ansiedade das quase quatro horas direto na estrada, mas o ano chegando ao fim torna difícil controlar o pensamento.

Entre algumas pescadas, durmo pouco mais de duas horas. São 4a.m. e eu sinto a necessidade de sair. Mais um banho. Um café solúvel de leve e lá vamos nós. Com um pouco de insegurança pela noite mal dormida, mas a madrugada é minha.

*

25 de dezembro de 2014. O gosto que eu tenho de viajar é culpa dos meus pais. Todo final de ano era a mesma coisa. No dia 26 de dezembro saíamos de casa, de madrugada e o dia amanhecia na estrada. Durante dois dias era calor, desconforto, paradas em postos de gasolina, almoço em beira de estrada um hotel no meio do caminho… tudo muito incerto. E tudo muito delicioso. A começar pelo cheiro da madrugada.

E assim a madrugada foi enquanto eu rasgava a estrada vazia. O deserto encantadoramente negro e sem fim, até o dia nascer.

A vida é uma estrada”. Desculpe o clichê. Mas se tem algo que 2014 me ensinou -ou reforçou – é esse conceito. O ano já deu o que tinha que dar. Logo no primeiro mês, emprego novo, segundo mês, comprei um apartamento com minha companheira da vida (lov u @nsvechio). Aprendi muito – desculpe novamente pelo clichê – e dei a volta por cima, me saindo muito melhor aos 26 anos do que as pessoas que me fizeram engolir, em 2013, um balde de sapos e que estão com 35, 36… aprendi a melhorar e me orgulhar do meu trabalho duro, sempre tomando cuidado pra não fazer pouco ou me aproveitar de quem sabe hoje menos que eu e colher frutos do esforços de outras pessoas. Perdi gente querida, conheci novos amigos e me reaproximei de tantos outros (rock and roll, The Truckers!) O final do ano foi duro, porrada atrás de porrada, curvas perigosas, tanque esvaziando, perda de freios e tempestades. Mas 2014 já foi também engoli uma cota de sapos. Porém, 2015 se abre como uma reta linda e ensolarada, implorando pra eu acelerar ao máximo.

A cabeça vai longe enquanto se viaja. Sozinho, parei em postos de gasolina, conversei com alguns frentistas e me encantei de novo pela vida viajando. Ironicamente, mesmo morrendo de saudades, eu nunca saí do Brasil. Mas por aqui eu já rodei Santa Catarina*, Paraná* São Paulo*, Rio de Janeiro*, Espírito Santo*, Goiás*, Minas Gerais*, Bahia*, Sergipe*, Pernambuco*, Ceará*, Piauí*, Tocantins* e Amazonas.

Os que têm “*” são os que rodei de carro, ônibus ou caminhão, riscando paisagens, vendo gente, batendo papo, fazendo perguntas.

Morro de saudades de cada um desses lugares e sempre penso em voltar, dividir o que vi com pessoas queridas, ir de novo pra enxergar os lugares com os olhos que tenho hoje.

Fui até Ribeirão Preto. Depois de alguns dias, voltei e na semana seguinte, desci pra Santos no dia 31/12/2014 com minha bela na garupa. Parando pela Via Anchieta pra olhar a paisagem e tirar algumas fotos. Toda vez que passo por lá, fico sem fôlego. A Serra do Mar é linda. Eu sempre me pergunto como os portugueses colonizadores viram aquile monumento natural, como D. Pedro I subiu a Serra quando declarou a independência… a mente paira, vai voando com o vento.

E todos os problemas vão longe. Até que a alegria se instala.

Os problemas estão aqui. E hoje, mais uma vez, minha família sofre na mão de empresários ambiciosos com o mínimo de consideração por quem trabalhou, deu o suor e o sangue para que seus negócios florescessem e eles ficassem bem na fita, alimentando seus egos do subjugo e da humilhação do outro, do assalariado.

Tudo isso enquanto viagens, bons vinhos, bons pratos e bons livros orbitam suas atmosferas. Cansei de ver pessoas que fingem que não vem um empregado ou colega na rua. Mas se existe algum interesse, correm a puxar o saco de outros – tão mesquinhos quanto. Barrigudos, cada vez mais gordos, trêmulos, tarados, nem um pouco didáticos, solteironas insuportáveis regojizando seus próprios egos navegando loucamente suas masturbações intelectuais. Enquanto isso derrubam um busto no NEA aterrando todos os sonhos de um jovem estudante de jornalismo.

O problema é o capitalismo?

Não sei. Julgo meus contemporâneos com suas vidas tão bem fotografadas com paus e filtros, em lindas paisagens ao redor do mundo e em ótimas companhias nas redes sociais, com muita beleza e academia e fico pensando “ah, se meus pais tivesse dinheiro pra me bancar durante a faculdade”…

Mas até essa ponta de inveja a estrada leva. Por mais louco e batido que possa ser o discurso dos motoqueiros dos anos 1960, ele começa a ganhar certa forma no fundo do meu crânio. O sistema está aí pra nos esmagar feito insetos em para-brisas. Ou você vira as costas e se revolta, vive à margem de tudo isso, ou fica nadando para o centro enquanto todo o resto de puxa para essa mesma margem.

Por isso a única coisa que um homem pode fazer é endurecer.

Estou procurando um jeito de terminar esse texto. Dane-se. O ano está só começando.

E o que era pra ser só algo sobre uma viagem de moto se tornou algo muito mais fundo, muito maior. Mas é exatamente isso que a estrada faz quando se entrega de fato à ela – te mergulha em você mesmo e as selfies nunca mais retratam quem você realmente é. Ainda assim você se procura lá. Mas sabe que não vai mais se encontrar…

2014 já foi com todos seus sangramentos, 2015 já começou dando porradas e eu ainda inventei de parar de fumar.

Mas pode vir…

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