MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Je Suis Charlie

Mardi, 7 Janvier, 2015

A manhã fria parisense, com temperatura entre 5° e 10°. Mas ninguém pensa que será um dia extraordinário. Apenas mais um de trabalho, no 11° distrito de Paris, região da Bastilha. Dois homens param no número 6 da Rue Nicolas Apert. Lá ficam os arquivos da Charlie Hebdo, revista satírica nos moldes de um Pasquim. Depois de verificarem que a redação não fica lá, mas sim no número 10 da mesma rua, apenas alguns metros a frente, se dirigem até lá.

Corinne Rey, cartunista premiada, de 32 anos e que assina como Coco foi buscar a filha na escolinha maternal e chegava ao trabalho com ela, pensando na reunião de pauta semanal do periódico. Eram 11h20. O que acontece nos próximos 10 minutos não tem volta. Quando os dois homens vestidos de preto e armados com rifles Kalashnikovs a renderam, falando francês fluente e ameaçando a ela e sua filha de forma brutal, ela não tem reação possível. Eles disseram que queriam entrar e subir.

Ela digitou o código da porta.

O recepcionista do prédio é o primeiro a ser alvejado pelas armas. Eles invadem a redação e separam homens de mulheres, por alguns, perguntam pelo nome. Corinne se esconde debaixo de uma mesa. Frédéric Boisseau, um funcionárioda Sodexo que trabalhava no prédio do jornal, e Michel Renaud, que visitava a redação, também foram mortos.

O diretor de redação, conhecido como Charb, não tem tempo de reagir, nem os colegas Georges Wolinski e Jean (Cabu) Cabut – famosos e grandes cartunistas de reconhecimento mundial. Nem mesmo um dos policiais – Franck Brinsolaro – que escoltava a equipe por conta das ameaças sofridas.

Os assassinos gritam “Allahu Akbar” (Deus é grande).

Às 11h30, a polícia recebe o primeiro telefonema os alertando sobre tiros no local. Os assassinos fogem trocando tiros com uma patrulha anti-crime da polícia. Dirigindo um Citroën C3 preto, encontram um veículo da polícia na avenida do outro lado do quarteirão. A Boulevard Richard Lenoir, cenário de um dos filmes amadores que correram nos jornais ontem. Disparam as pesadas armas dez vezes contra a viatura policial, ferem dois agentes que estavam a bordo.

Eles atiram em policiais a pé. Um cai na calçada. O tiroteio é intenso. Há um terceiro assassino dando suporte à ação. Dois descem do carro. Os assassinos marcham, coordenadamente, um cobrindo a posição do outro. Mais um disparo é efetuado, a uma distância de 30 cm aproximadamente, da cabeça do policial agonizante. O nome do guarda é Ahmed Merabet, ele tinha 42 anos e era muçulmano.

Eles voltam ao carro e dão seguimento a fuga. Batem o automóvel, trocam de veículo e a polícia perde seu paradeiro.

O saldo:

– 12 doze pessoas mortas, oito jornalistas.

– 11 feridas, quatro com gravidade.


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A revista semanal “Charlie Hebdo” é conhecida por fazer duras críticas a religiões, incluindo o Islã, e políticos. Em 2011, foi vítima de um atendado a bomba após a republicação de uma charge que tinha saído em uma revista dinamarquesa e retratava um líder muçulmano. Na ocasião, ninguém ficou ferido.

A cratera aberta no mundo com esse ato terrorista nos dá margem para muita discussão, muitas perguntas e muita insegurança.

Penso em três tópicos:

1 – Ocidente-Oriente Médio/ Cristianismo-Islã;

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A Europa se encontra novamente como uma panela de pressão. A crise econômica e os números de imigração incomodam os europeus e torna um ponto de inflamação no tecido social.

Na própria segunda-feira isso foi notícia. Em Köln, na Alemanha, igrejas, a companhia de energia elétrica local e comércios desligaram as luzes em solidariedade a uma manifestação contra passeatas que ofendem o direito de imigrantes e muçulmanos no país, mais diretamente aos atos organizados na cidade de Dresden pelos “Europeus Patriotas Contra a Islamização do Ocidente (Pegida, na sigla em alemão). Várias dessas passeatas aconteceram nos últimos três meses. A preocupação é que de alguns gatos pingados no início, uma passeata na véspera do Natal reuniu quase 20 mil pessoas.

Talvez os ataques de ontem sirvam como gasolina sobre fogo, atiçando ainda mais o ressentimento dos europeus contra todo um grupo étnico-cultural-religioso.

2- A zueira não tem limites; 

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Aqui mesmo no trabalho a discussão se acalorou. É permitido ou não fazer piada com os signos religiosos de outra pessoa? Entre um argumento e outro, em menos de 20 segundos as afirmações começaram a ficar acaloradas. Não é de se surpreender. Tenho pra mim que tudo é fruto de se levar a sério demais. Até onde entendo, culpar a revista é como culpar a vítima, dizer que a menina foi estuprada por usar uma roupa curta demais, se insinuar demais, beber demais. E escutamos isso todos os dias.

– O sr. acredita que de alguma forma “Charlie Hebdo” exagerava nas piadas?
– Era a concepção deles, um jornal satírico onde o exagero era parte de sua ideia. Se você diz que eles exageram, diz que eles não têm razão de ser. Estavam convencidos de que a liberdade de expressão é atacar de Cristo a Maomé. Era a concepção de liberdade deles. Pode-se achar isso babaca ou bom. Mas é parte do jogo. Uma sociedade livre é justamente aquela que suporta o excesso.

Trecho da entrevista de Daniel Cohn-Bendit, deputado do parlamento europeu e amigo de alguns dos cartunistas mortos, publicada  pela Folha de S.Paulo. (http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/01/1572097-jornal-foi-alvo-por-ir-ate-as-ultimas-consequencias-diz-cohn-bendit.shtml)

Nada justifica o que aconteceu ontem. Da mesma maneira que não há saia curta, calcinha ou biquini vulgar que justifiquem um estupro. A revista usava do humor para criticar o uso político das religiões – veja bem, no plural – e desde que o homem é homem ele tenta enfiar goela abaixo suas crenças no próximo e as religiões se enfiam na política e ondem não devem. Há pouco tempo nossa presidente Dilma Rousseff, o governador Geraldo Alckmin e o prefeito Fernando Haddad foram à inauguração de um templo protestante gigantesco aqui em São Paulo. A bancada de deputados e senadores protestantes também são um câncer nos nossos já pútridos meios políticos. Taí, se eu tivesse talento como cartunista, desenharia isso. Entende a lógica? A revista estava sim no seu direito, na sua liberdade desenhando de Jesus, a Maomé, a Buda.

3 – O que isso tem a ver conosco?

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Eu sou jornalista e o que aconteceu em Paris é sim uma ofensa contra todos nós. Atrocidade com enormes raízes que chegam até mim e até você. Nossa sociedade global é interdependente financeiramente e ideologicamente. Pigmentos do mesmo extremismo ignorante e cancerígeno dos terroristas estão bem aqui, nos nossos políticos corruptos, nos racistas preconceituosos, seja por classe social, cor da pele ou orientação sexual. Nos fanáticos religiosos que contaminam nossos televisores madrugada afora. As últimas eleições presidenciais são prova disso em que a carga de ofensas contra os nordestinos foi ampla ou quanto ao preconceito fomentado contra a candidata Marina Silva de que “é crente e vai transformar o Brasil em um país de crentes”.

Esse sentimento ridículo é fomentado no discurso de posse da Dilma, que disse sobre o caso da Petrobrás, “É preciso defender a Petrobras de predadores internos e de seus inimigos externos’. É exatamente o tipo de frase que traz esse raciocínio.

Não apenas com ela, mas os pastores que dizem que tudo é “obra do Satanás”, os católicos fazem isso, os espíritas dizem muitas vezes que são “obsessores” os causadores de todas nossas mazelas, enquanto somos nós mesmos que os atraímos. A divisão é fomentada até entre famílias. “Nossa família é boa, a família dele não sei”.

O ataque de ontem que choca pela frieza, preparo e ousadia dos assassinos e que remetem às ações guturais de organizações preparadas, crescente e muito ricas como é o caso da Al-Qaeda e do Estado Islâmico, parece muito distante, enredo de algum filme hollywoodiano qualquer.

Mas os mesmos ingredientes-base estão muito mais perto do que possa imaginar.

Enquanto isso, o jornalismo brasileiro morre na chapa-branca, na casca do politicamente correto, no “deixa-disso” e os interesses financeiros dos seus donos.

Estamos precisando desesperadamente de mais Charlies Hebdos.

#jesuischarlie #charliehebdo

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Publicado às 8 de janeiro de 2015 por em Política, Quadrinhos e marcado , , .
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