MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Charlie et l’hypocrisie des nations et la mort de la presse

“Charlie e a hipocrisia das nações e a morte da imprensa” é o título desse post.

Pois tudo isso está relacionado.

Ontem foi domingo (madrugada de segunda enquanto escrevo), um dia preguiçoso por natureza. Por conta disso, confesso que tive preguiça de acompanhar a marcha de Paris de ontem. Não apenas a preguiça enraizada no meu direito de não dar a mínima em um dia de domingo, seguido por uma semana quase insana de trabalho e com o nível emocional a mil por conta de problemas domésticos. Mas a preguiça mais idealística, de não querer dar audiência pra algo que soa estranho.

Entre as muitas interrupções da programação do Esporte Espetacular da Globo e o olhar para o dia ensolarado da minha janela – não levantei da cama antes do meio-dia e olhar o dia lindo pela janela me satisfazia alegremente enquanto tentava ficar na mira do ventilador. Algo estava estranho naquela cobertura. Os fatos.

De acordo com o ministério do interior francês, foram 3.7 milhões de pessoas na caminhada ontem, a maior na história do país. Mais de 40 líderes de várias nações se uniram “solidariamente” ao ato, braço a braço.

Coisa linda, não é mesmo?

Coisa linda, não é mesmo?

Muio linda mesmo. Os assassinatos cometidos pelos terroristas na França realmente chocam. É muito fácil a gente se imaginar na situação. Isso incomoda, provoca debates, dá um aperto no estômago, um nó. Chega a dar um medo.

Enquanto isso…

joker

A conta de pessoas mortas nos últimos 12 dias pelo Boko Haram, na Nigéria, pode chegar a 2000. Pelo menos 19, só neste sábado, quando uma bomba amarrada em uma menina de DEZ ANOS DE IDADE foi detonada em um mercado lotado de pessoas em Maiduguri.

Foi relatado que os extremistas do Boko Haram – que também é uma organização que se veste com a cara do islamismo para cometer seus crimes – também assassinaram outros muçulmanos, os taxando de “infiéis”. Simplificando o raciocínio: é mais que óbvio que a religião  não tem nada a ver com essa conduta. É apenas um exército de bullies sádicos e megalomaníacos usando uma ideologia, distorcendo-a, para justificar seus próprios desejos particulares de crueldade.

Aí você encontra outras situações pra equação. 

De acordo com uma entrevista dada à Reuters, Mohamed Bukar, escapou de um dos massacres perpetrados pelo BH com sua família. “Escapei no carro depois de vê-los matando as pessoas, vi corpos na rua, crianças e mulheres, alguns clamando ajuda”.  Em outra matéria, Abubakar Gulama, que escapou sem a sua família disse ter atravessado “muitos cadáveres no chão” e “toda a cidade estava pegando fogo”.

Essas mesmas pessoas podem buscar asilo na Europa. Por que não? Ou então, você não faria isso? Enquanto isso, os patriotas atuais dizem que eles não devem ir para seu país. E a queda de braço está instalada.

O que está no holofote são os muçulmanos. Embora seja muito fácil culpar um grupo étnico ou cultural dos ataques, personificar o medo e incompreensão desses ataques a um turbante ou burca, duas histórias mostram que o problema não é esse. Primeiro a do policial Ahmed Merabet, muçulmano morto durante os ataques da última quarta-feira e em segundo, a do jovem Lassana Bathily, negro de 24 anos, muçulmano e que trabalhava no mercado de produtos judaicos que sofreu ataque na última sexta-feira por outro integrante do grupo terrorista. Ele salvou vários clientes os escondendo na câmara frigorífica enquanto o terrorista entrou atirando na loja. Graças a essa ação, as pessoas conseguiram ajudar o trabalho da polícia usando os seus telefones celulares.

De novo, um negro, com um emprego de baixa renda no mercado, muçulmano. O mesmo estereótipo que a extrema direita culpa pelos ataques também serve para um homem simples, trabalhador, que fez a coisa certa em um momento difícil.

A última fronteira não são “nós e eles”. Mas não enxergamos nada dessa forma.

E não é assim com as fronteiras dos EUA? Os latinos também não são marginalizados por lá? Enquanto muitos tentam a qualquer custo atravessar as fronteiras do sul do país?

Ok, vou novamente trazer a discussão ao Brasil. Dezenas de milhares de haitianos – e africanos também – estão vindo ao Brasil buscar vida nova, fugindo das condições catastróficas de seus lugares de origem. E eu já ouvi a frase “eles vem pegar nossos empregos aqui”, tanto de pessoas da família quanto do trabalho e de outros círculos sociais. Oras, os mais ricos não criticam a classe média? E a classe média não demoniza os ‘pobres’ e ‘favelados’?

Tudo isso mostra apenas que o buraco é muito, MUITO mais embaixo.

Voltando ao velho mundo…

Pois dinheiro é algo que nunca enfrenta problemas para atravessar fronteiras e tanto o Boko Haram, quanto o Estado Islâmico ou a Al-Qaeda usam algo em comum nas suas atividades – não estou falando da apropriação de uma religião – grana! Dinheiro é a fonte do poder de ação desses caras, para comprar armamentos, explosivos, equipamentos civis e militares, para recrutar, treinar, comer e vestir cada um dos putos que os compõe.

E é na investigação desse pipeline que os esforços devem se focar. São empresas de faixada que eu e você podemos estar alimentando comprando qualquer coisa cotidiana e nem fazemos ideia.

Está aí uma boa missão a um grupo de jornalistas. Essa é uma das funções sagradas desse profissional. Mas que não é cumprida por uma série de limitações – inclusive pelos seus próprios governos.

Ou você fala o que eu quero ouvir OU cala tua boca OU te calam.  (Desconhecido, fala de uma estudante de jornalismo, há alguns anos, em uma faculdade)

Voltando à Paris e à hipocrisia dos líderes do mundo… A associação “Repórteres sem Fronteiras” repudiou a participação do que chamou de “predadores” entre as lideranças que foram homenagear as vítimas francesas. (http://en.rsf.org/rwb-condemns-presence-of-predators-11-01-2015,47472.html)

Para dar ainda mais consistência a essa crítica, o inglês Daniel Wickman postou uma série de tweets apontando os crimes contra a imprensa de vários presentes na passeada que destacava entre outras coisas, a liberdade de expressão… ah, a hipocrisia…

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Publicado às 12 de janeiro de 2015 por em Política, Textos e ensaios... e marcado , , , , , .
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