MIRANTE 1

Apenas um grande caderno de notas. Um mirante de onde eu olho tudo e qualquer coisa e bato nas teclas pra registrar.

Bate panela, bate

Bater panela é direito constitucional.

TÍTULO II
Dos Direitos e Garantias Fundamentais
CAPÍTULO I
DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;

Dizer que o ato foi “orquestração golpista” é demais.

Durante a tarde venho recebendo alguns textos culpando a “Elite Branca” pelo ato.

Me espanto.

Os discursos no Brasil sempre caem num limbo de prolixidade e hipocrisia. Só porque você é rico você também não merece estar insatisfeito com seu governo? O pobre tem motivo para reclamar, mas a classe média e alta não podem falar um pio, porque a vida é boa demais pra eles?

Eu sou branco, me considero na classe média, me formei na faculdade. Meu pai é do interior da Bahia, minha mãe de São Paulo. Eu pego metrô e ônibus, alguns dias ando de carro, eu pago a minha moto – em muitas prestações- e estou deixando minhas cuecas para uma construtora, junto com muitas lágrimas e suor. Eu trabalho pra caramba.

Minha vida não está ganha e eu batalho muito.

Mas isso me faz um crítico político ou eleitor mais ou menos competente ou gabaritado para protestar quando discordo da maneira como a política é conduzida no meu País?

Eu não bati panela, mas não me ofendo pelos que bateram. Estavam exercendo seu direito. Assim como o meu. Eu votei na Dilma, no segundo turno das eleições de 2010. Não votei em 2014. Eu voto em um candidato hoje, mas isso não me obriga a acatar tudo o que ele ou o partido dele me dizem.

Nem vou julgar quem for às ruas no dia 15. Talvez eu vá, talvez não.

Mania que temos – e como temos – de tentar calar a boca de quem fala o que não gostamos. Descredenciar o denunciante.

“Os noticiários são úteis, mas nem sempre são suficientes. Muitas vezes até nos confundem mais do que nos esclarecem“.

A imprensa tem muitos problemas, e como tem! Como jornalista eu bem sei que muita coisa está errada no noticiário (desde textos muito mal escritos, até erros de apuração) e a imprensa está pagando por isso, perdendo muitos leitores e tendo que demitir muita gente.

Ainda assim, culpar a imprensa pela imprensa quando ela denuncia escândalos de corrupção como o da Petrobrás ou tantos outros não está certo.

Bandidos não tomaram conta do País. Bandidos construíram esse país.

Bandidos vindos do mar que desmataram e se instalaram por aqui, desbravaram essas matas em busca de ouro e pedras preciosas, bandidos chamados coronéis que escravizaram gente humilde e sertanejos, bandidos que traficam drogas, fazem assaltos à mão armada nos faróis, matam dentistas carbonizadas e praticam sequestros relâmpago. Bandidos que escravizaram os mais pobres no ciclo da borracha há 200 anos. Bandidos fardados, que torturaram e mataram em prol do progresso brasileiro. Bandidos que negociam por baixo dos lençois as propinas milionárias nos contratos das estatais, bandidos que pensam sempre no “deles”, mesmo que o “deles” seja dinheiro público. Bandidos que querem bancar com dinheiro público passagens para suas esposas irem até Brasília. Bandidos do Palácio dos Bandeirantes que mandam a polícia descer o cacete em manifestantes…

Bandidagem é ~cool~ do colarinho à corrente sem camisa e aba reta.

A ~Malandragem~ é nossa, das cláusulas de contratos viciados às armas nas mãos – até aquele pênalti cavado.

Deus é brasileiro, e o diabo mais ainda.

É a gente, no âmbito íntimo, na reforma íntima, que quebra esse paradigma. Não adianta apontar o dedo pra ninguém.

Então, meu amigo, se o riquinho quer bater panela de 500 contos pra mostrar o seu desgosto ao sistema  – que pode ou não ser projetado na figura da presidente(a) – não negue esse direito que é tão dele quanto seu. Apenas diga que discorda da visão dele. Bata panela de volta e fale, “o governo está acertando aqui, aqui e aqui”, mas não diga “seu riquinho de merda que é elitista e contra qualquer reforma social que ajude os mais pobres”.

Da mesma forma que PT e PSDB e PMDB e PP e DEM e PSOL etc., são vários lados de um mesmo prisma. Atacar uma classe social é a mesma coisa, sempre ruim – venha de baixo pra cima ou de cima pra baixo. Dois prismas da mesma sociedade.

Xingar a presidenta de “vaca” é burro e não soma a nada ao debate. Não faça isso também. Você só está externalizando um sentimento ruim, sem nenhum esforço intelectual pra entender a sua raiva.

Política e paz, meu amigo.

Pelo batuque da panela, da favela ao condomínio.

MulherPanela

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Publicado às 9 de março de 2015 por em Política e marcado , , .
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